Esse é um dos “insights” destacados por Valor Cultural do novo Censo sobre Investimento Social Privado publicado pelo GIFE
Dados do Censo GIFE 2024 revelam:
> A Promessa: 82% das Empresas e 78% dos Institutos Empresariais acreditam que a agenda ESG aumenta o orçamento disponível para o social.
> A Realidade: Enquanto 62% das Empresas (que investem diretamente) demonstram diretrizes formais e explícitas conectando o social ao ESG, apenas 30% dos Institutos e Fundações Empresariais possuem a mesma formalização.
> A Vulnerabilidade: Nos Institutos e Fundações, a conexão depende majoritariamente de “recomendações da direção” (40%) ou “integração espontânea” (22%).
A agenda ESG (Environmental, Social and Governance) consolidou-se como a principal locomotiva do investimento social nas últimas décadas. No Brasil, essa percepção é mais do que um otimismo de mercado: é uma convicção. Dados do Censo GIFE 2024-2025 confirmam que quase 80% do setor — especificamente 82% das Empresas com investimento direto e 78% dos Institutos/Fundações Empresariais — enxergam o alinhamento com estratégias ESG como uma alavanca que, de fato, potencializa e amplia o orçamento destinado ao investimento social.
O “S” de social nunca foi tão capitalizado. No entanto, se o fluxo de recursos tem a promessa de se expandir, a sua perenidade e a qualidade dessa integração estão seriamente comprometidas pela fragilidade de governança.
O ponto de tensão reside na maneira como o investimento social é institucionalizado. A matriz das empresas, quando investe diretamente em projetos sociais, trata o tema com a devida formalidade: 62% delas possuem diretrizes formais e explícitas que ligam suas ações sociais à estratégia ESG. Essa alta taxa sugere que o investimento social direto é visto como uma questão de compliance e mitigação de risco, exigindo regras corporativas rígidas.
O contraste emerge quando olhamos para os braços sociais dessas mesmas corporações — os Institutos e Fundações Empresariais. Nesses veículos, a formalização é a exceção, e não a regra. Apenas 30% possuem uma diretriz explícita para a integração ESG. A maioria opera na informalidade: 40% dependem de “recomendações da direção” e, supreedentemente, 22% contam com uma “integração espontânea”.
Esse abismo sugere que as empresas tratam seus Institutos não como unidades estratégicas de risco a ser mitigado, mas sim como veículos de “propósito” ou “legado”, permitindo uma gestão mais fluida e menos vinculante. O propósito é louvável, mas a execução frouxa é perigosa.
O RISCO DA CANETADA – A dependência de “recomendações da direção” e da “integração espontânea” transforma o orçamento social, que é vital para ONGs e projetos culturais na ponta, em uma linha orçamentária vulnerável e instável.
Sem diretrizes estatutárias ou políticas de governança formalizadas, o destino de projetos de longo prazo fica refém da troca de CEOs ou da simples mudança de prioridades executivas de curto prazo. Se um novo presidente assume a companhia e não compartilha o entusiasmo do antecessor por determinada pauta social ou cultural, a “integração espontânea” pode desaparecer em um trimestre, e os recursos secam com uma “canetada”.
Para os captadores de recursos e gestores culturais, essa dinâmica é um alerta crucial: um Instituto que opera na informalidade representa um risco muito maior de corte do que um que possui seu alinhamento ESG blindado por uma política de Estado corporativo.
A vulnerabilidade da governança se torna ainda mais preocupante quando analisamos as motivações do alinhamento. O Censo aponta que um dos principais motivos para a integração do ESG é “Contribuir para a imagem da organização e ganhos reputacionais” (65%).
O ESG traz dinheiro e visibilidade, mas a ausência de governança formalizada intensifica o risco de que o investimento social se converta em mera ferramenta de marketing, o chamado socialwashing. Se a integração não é formal e é guiada majoritariamente por ganhos de imagem, o investimento pode ser facilmente ajustado ou abandonado assim que o foco midiático mudar ou o benefício reputacional diminuir. Uma governança robusta é a única forma de garantir que o investimento social esteja atrelado ao impacto de longo prazo, e não apenas ao ciclo de notícias.
Resumindo: O Brasil vive a contradição de ter um setor corporativo altamente otimista quanto ao poder de financiamento do ESG, mas com uma estrutura institucional de seus braços sociais ainda calcada na informalidade.
Para que o ESG se torne, de fato, um pilar de desenvolvimento social sustentável no país, é imperativo que as Fundações e Institutos Empresariais transformem suas boas intenções e suas “integrações espontâneas” em políticas formais de governança. Blindar os orçamentos com diretrizes estatutárias é o passo final para garantir que a promessa financeira do ESG não se perca na próxima crise ou na próxima troca de comando. O desafio não é mais captar o dinheiro do ESG, mas sim garantir que ele veio para ficar.
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