Novo Censo GIFE revela que mais da metade das organizações não considera idosos uma prioridade, enquanto a primeira infância recebe menos da metade da atenção dada à juventude.
O Investimento Social Privado (ISP) brasileiro tem uma preferência etária clara: a juventude produtiva. Dados do Censo GIFE 2024-2025 revelam um desequilíbrio significativo na destinação de recursos e esforços, deixando descobertas as duas pontas mais vulneráveis do ciclo de vida humano: a primeira infância e a velhice.
Ao mapear para quem os projetos são desenhados, o levantamento de Valor Cultural identifica uma concentração massiva de esforços na preparação para a vida adulta e o mercado de trabalho, em detrimento das fases que demandam maior proteção social e cuidado. O foco, perigosamente, está na “Idade Produtiva” e revela o Abandono das Pontas.
Esse quadro pode-se observar assim: a atuação direta das organizações atinge seu pico na faixa dos jovens de 18 a 29 anos, priorizada por 47% dos investidores. Em seguida aparecem os adolescentes de 15 a 17 anos, foco de 45% das organizações.
Sabe-se que o setor filantrópico brasileiro, historicamente, aposta suas fichas na inserção econômica imediata.
Mas o contraste aparece quando olhamos para os extremos da pirâmide etária, onde a atuação direta despenca:
- Primeira Infância (0 a 5 anos): Apenas 20% das organizações atuam diretamente com este público.
- Idosos (60+): É o grupo mais invisível, com apenas 12% de atuação direta. O dado mais alarmante é a rejeição explícita: 53% das organizações declararam que este público “não é prioritário” em suas estratégias.
O relatório do Censo GIFE, publicado semana passada, alerta para o risco estratégico dessa negligência. No entanto, a dimensão da lacuna só pode ser compreendida por meio da demografia e da economia social.
- O Argumento Econômico da Primeira Infância e a Curva de Heckman
A baixa prioridade do ISP na Primeira Infância é um equívoco que ignora a lógica econômica mais fundamental do desenvolvimento humano, formalizada pelo ganhador do Prêmio Nobel James Heckman. A “Curva de Heckman” estabelece que o Retorno Sobre o Investimento (ROI) é decrescente com a idade. Investir em educação e saúde de qualidade para crianças pequenas gera o maior retorno, geralmente estimado entre 7 e 10 dólares para cada 1 dólar investido. Esse retorno se manifesta através de maior produtividade, menos criminalidade e menor necessidade de intervenções corretivas dispendiosas na juventude. Ao investir tardiamente, o setor filantrópico perde a janela de oportunidade onde o capital humano é mais maleável e o potencial de quebra de ciclos de pobreza é maximizado.
Exemplo Brasileiro de ROI: Programas de visitação domiciliar e estímulo, como o Primeira Infância Melhor (PIM), do Rio Grande do Sul, e o federal Criança Feliz, são provas brasileiras que validam a teoria de Heckman. Estudos independentes sobre o PIM, por exemplo, demonstraram que o programa não só melhorou os indicadores de desenvolvimento infantil, mas também se correlacionou com uma redução de até 40% na taxa de homicídios de jovens nos municípios onde foi implementado. Tais resultados evidenciam que investir na base é a maneira mais eficiente e financeiramente rentável de prevenir problemas sociais futuros.
- O Choque Demográfico e o Risco Sistêmico da Negligência dos Idosos
A postura da maioria dos investidores sociais, que declaram o público idoso (60+) como “não prioritário”, é um profundo descompasso com a realidade demográfica nacional. O Censo IBGE 2022 confirmou o rápido e irreversível envelhecimento do Brasil. A população idosa cresceu 57,4% em 12 anos, totalizando 32,1 milhões de pessoas. As projeções indicam que, em poucas décadas, a população idosa superará a de jovens.
O risco sistêmico é claro: ao ignorar essa faixa etária, o ISP falha em preparar a sociedade para o aumento exponencial da demanda por cuidados de longo prazo, saúde, e inclusão social para a terceira idade. A ausência de projetos focados transfere o ônus do cuidado quase integralmente para o Estado e as famílias, modelo insustentável que pressionará os sistemas de previdência e saúde e impactará a economia nas próximas décadas.
- Comparativo Global: A Miopia Brasileira versus Tendências Internacionais
Essa “miopia” etária não é uma regra global. Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, o movimento de Early Childhood Development (ECD) é um pilar da filantropia de alto impacto há décadas. Mais recentemente, a Aging Philanthropy (Filantropia para o Envelhecimento) está em franca ascensão, com grandes fundações direcionando recursos significativos para pesquisas sobre longevidade saudável e soluções de moradia e tecnologia assistiva para a terceira idade.
O que se observa globalmente é uma visão mais equilibrada do ciclo de vida: o reconhecimento de que investir nas “pontas” do ciclo de vida é onde se obtém o maior dividendo social a longo prazo e se resolvem os problemas estruturais, uma visão estratégica que o ISP brasileiro ainda precisa incorporar.
Este é um dos “insights” detectados por Valor Cultural do teor do CENSO GIFE 2024-2025. Ver em nossa homepage outros recortes relevantes
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