ISP: Novo Censo Revela Mudança Tectônica no Perfil dos Doadores

Levantamento aponta ascensão inédita da filantropia independente, explosão de apoio emergencial climático e persistência de gargalos de diversidade nas instâncias de decisão.

O Investimento Social Privado (ISP) no Brasil vive um momento de reconfiguração e robustez financeira. Segundo os dados do Censo GIFE 2024-2025, divulgados nessa semana, o setor mobilizou R$ 5,8 bilhões em 2024. O montante, corrigido pelo IPCA, representa o segundo maior volume de toda a série histórica, ficando atrás apenas do ano atípico de 2020 (R$ 6,7 bilhões), marcado pela mobilização massiva contra a Covid-19,.

Este resultado sinaliza uma retomada consistente pós-pandemia, superando em cerca de R$ 500 milhões os valores de 2022 (R$ 5,3 bilhões) e consolidando um novo patamar de investimento para o setor, que havia recuado em 2021.

Embora os Institutos e Fundações Empresariais continuem sendo os protagonistas do volume financeiro — aportando um recorde de R$ 3,2 bilhões (55% do total) —, o Censo revela uma mudança tectônica no perfil dos doadores.

Pela primeira vez na história da pesquisa, as organizações Independentes (aquelas sem vínculo direto com empresas ou famílias mantenedoras exclusivas) superaram a barreira de R$ 1 bilhão em investimentos. Esse grupo, que vem crescendo em número de associados, consolidou uma inversão histórica iniciada em 2020, ultrapassando o volume investido pelas organizações Familiares e sinalizando uma diversificação vital para a autonomia da sociedade civil.

Em contrapartida, as Empresas (que investem diretamente sem intermédio de institutos) reduziram sua participação relativa e absoluta em comparação ao pico da pandemia, embora mantenham um ticket médio elevado de investimento,.

Se os números gerais mostram crescimento, a destinação desses recursos revela onde o calo aperta no Brasil. Em um ano marcado por tragédias climáticas, como as enchentes no Rio Grande do Sul e a seca na Amazônia, o apoio emergencial disparou 535%, saltando para R$ 786 milhões.

Esse dado expõe uma mudança de chave: o setor precisou reagir a desastres imediatos, o que coincidiu com uma queda de 24% nos investimentos estruturais em “Proteção e assistência social/erradicação da pobreza”. Apesar do discurso crescente sobre a agenda climática, os recursos específicos para “Clima e Mudanças Climáticas” somaram R$ 368 milhões, representando apenas 6% do bolo total, sendo quase metade desse esforço (49%) liderado pelas organizações Independentes.

O PAPEL DA CULTURA – Um ponto de alerta surge no setor cultural. O investimento total em Cultura e Artes sofreu uma queda de 30% em 2024 na comparação com a edição anterior, totalizando R$ 327 milhões.

A análise detalhada mostra uma fragilidade estrutural: a área é altamente dependente de incentivos fiscais. A Lei Rouanet sozinha mobilizou R$ 223 milhões, consolidando-se como o principal mecanismo de renúncia fiscal utilizado pelo setor. Isso indica que, sem o incentivo estatal, o aporte de recursos próprios das organizações para a cultura seria drasticamente menor.

Enquanto o volume de dinheiro cresce, a diversidade de quem assina o cheque avança a passos lentos. O Censo GIFE aponta uma concentração de poder decisório homogênea, especialmente entre quem tem mais dinheiro.

Nas organizações que investem acima de R$ 50 milhões anuais (os “grandes investidores”), 71% dos conselhos deliberativos ainda têm maioria masculina. Além disso, 54% de todo o volume financeiro do ISP (R$ 3,1 bilhões) é gerido por conselhos que não possuem nenhuma pessoa negra ou indígena em sua composição.

Ainda que haja avanços na paridade de gênero em organizações de menor porte, o topo da pirâmide filantrópica brasileira permanece majoritariamente branco e masculino.

Por fim, o estudo confirma uma tendência de amadurecimento do setor: o Brasil está deixando de ser um país de “ONGs que executam seus próprios projetos” para ter mais organizações doadoras. O percentual de organizações essencialmente financiadoras atingiu seu recorde (28%).

O repasse direto de recursos para Organizações da Sociedade Civil (OSCs) chegou a R$ 1,3 bilhão, um recorde se desconsiderarmos o ano atípico da pandemia. Isso sugere um movimento de maior confiança e fortalecimento da ponta, embora as restrições orçamentárias ainda sejam indicadas como a principal barreira para ampliar esses repasses.

Não perca os próximos “insights” que publicaremos sobre dados relevantes captados pelo Censo. 

SERVIÇO

O Censo completo pode ser acessado por aqui. 

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