Matéria originalmente publicada em 22 de maio de 2023
A cultura brasileira sente falta de dois componentes importantes para seu melhor desenvolvimento: a ausência de políticas públicas sólidas e permanentes e de dados confiáveis sobre seu peso na economia do País.
O primeiro ponto está à espera de alguma relevante, desconectada de incentivo fiscal, preferencialmente. Quanto ao segundo houve avanços, principalmente após a compreensão de que ela faz parte do que se denominou chamar de Indústria da Economia Criativa, que é dividida em 13 segmentos decorrentes de quatro áreas: Consumo, Mídias, Cultura e Tecnologia.
Cultura é a mais ampla, abrangendo Música (gravação, edição e mixagem de som, criação e interpretação musical); Artes Cênicas (atuação, produção e direção de espetáculos teatrais e de dança); Patrimônio e Artes (serviços culturais, museologia, produção cultural, patrimônio histórico) e Expressões Culturais (artesanato, folclore e gastronomia).
Mas, apesar de sua amplitude e pujança, a composição do Produto Interno Bruto da Economia da Cultura e das Indústrias Criativas no Brasil mostra que o setor cultural não anda muito bem na fita, já que patina desde 2012 na faixa dos 0% quando se analisa a formação dos setores culturais e criativos. Vê-se que, no gráfico abaixo, representada pela lei Rouanet, sua cor não aparece nem em rabisco.

Esses dados, e vários outros, foram publicados pelo Observatório Itaú Cultural, com o objetivo de dissecar como é formado, qual seu tamanho e qual a influência que esse PIB exerce sobre nossa economia, e ao qual se deu o nome de PIB da Economia da Cultura e das Indústrias Criativas no Brasil (ECIC).
É importante conhecer essa pesquisa (cujo link está disponível logo abaixo) para compreender melhor a importância dessa conversa que tivemos com quem buscou, orientou, tabulou e reuniu esse volume de informações tão necessárias para quem se dispuser a desenhar uma boa política para esse setor que disputa com outros gigantes, cabeça a cabeça, a liderança do nosso Produto Interno Bruto global.
PIB DA ECONOMIA DA CULTURA E DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS NO BRASIL
Durante 40 minutos o gerente Jader Rosa e o economista Bruno Tuzzi, ambos do Observatório Itaú Cultural, destacaram tantos aspectos relevantes da pesquisa que achei melhor fazer um Sumário para antecipar o que foi dito e, assim, livrá-lo da tarefa de ter que ler tudo para descobrir.
Os principais pontos abordados foram:
- Sobre origem e metodologia da pesquisa
- Surpresa com os bilhões e comparação com outros setores
- Mudanças de paradigmas, de consumo para serviço
- No que a tecnologia afetou o setor cultural
- Tendências para cultura e economia criativa
- Trabalho no futuro e sua transversatilidade
- Como a Inteligência Artificial vai influenciar no próximo PIB
- Necessidade de qualificar a pergunta
- Comparação com outros países
- Detalhamento dos vetores analisados
- Por que cultura é o primo pobre
- A surpreendente importância da Moda
- E que o setor é reservado para a maioria branca
COMPONENTES – O Produto Interno Bruto, para quem não sabe, se é que alguém ainda não sabe, é a somatória de todos os produtos e serviços finais produzidos no País. Em 2022 ele bateu na casa dos R$ 9,9 trilhões, mas em 2020 foi de R$ 7,61 trilhões e esse dado é importante porque a pesquisa realizada pelo Observatório sobre o PIB da Cultura e das Indústrias Criativas levou em conta os dados referentes de 2012 até aquele ano. E se em 2020 a economia brasileira caiu 3,3% (dados do IBGE), ele foi o período em que o PIB da Ecic atingiu seu pico, representando 3,11% do PIB nacional. Isso dá R$ 237 bilhões segundo o ChatGPT, já que eu não consigo fazer muita conta. Os formuladores do PIB da cultura deflacionaram o valor e chegaram a R$ 280 bilhões.

Ponto interessante da conversa com Jader e Bruno é que eles detalharam melhor os pilares em que se basearam os cálculos para formulação do PIB: Foram esses:
Massa de lucros (ML); Massa salarial (MS); Impostos; Lei Rouanet; e Digital. E foram considerados desde os tradicionais valores das contas nacionais como salários, lucros, impostos e aluguéis, até as remunerações oriundas da digitalização do setor e da lei de incentivo à cultura brasileira.
A pesquisa explica que, no caso da Ecic, constatou-se que a ML (Massa de Lucros) é, na média, 4,5 vezes maior que a MS (Massa Salarial). Uma das explicações para esse fenômeno é o grande número de empresas de micro e pequeno porte do setor, que correspondem por quase 60% do total de empresas. Os impostos, segundo maior componente do PIB da Ecic, representam toda a arrecadação do governo brasileiro oriunda desse grupo, sejam impostos sobre os lucros, salários, serviço e produtos. Remunerações oriundas do digital e lei Rouanet são os dois últimos componentes do PIB e representam, conjuntamente, menos que 1%.

Os dois entrevistados explicaram melhor isso.
Dado que acharam surpreendente foi constatar que o tamanho do PIB da Ecic não difere muito do alcançado por setores tradicionais da economia brasileira como automobilístico, construção, extrativista e transporte.
E não deixaram de realçar um elemento que não foi revelado nesta pesquisa, mas que consideraram relevante: a importância do segmento de Moda.
A essa matéria, por sugestões deles, foram agregados links que levam a informações complementares que só enriquecerão esse conteúdo – envolvem o Painel de Dados do Observatório e a pesquisa sobre Hábitos da Cultura III, realizada em parceria com Datafolha. Matéria sobre Moda foi montada à parte.
A entrevista com Jader Rosa e Bruno Tuzzi pode ser lida em resumo para cada resposta e sua íntegra em áudio gravado.
Aproveitem
EDUARDO MARTINS – Gostaria que vocês explicassem o que levou à formulação desse PIB e qual foi a metodologia utilizada para sua realização.
Resumo: Jader, primeiro, e Bruno, explicaram que a origem nasceu observando o Painel de Dados que o Observatório mantém desde 2020, que a cada trimestre traz dados sobre a economia criativa. Por ele se consegue olhar para o movimento de empresas, gastos públicos e exportação e, olhando informalidade, olhando ocupação e que tipo de ocupação se vislumbrou a necessidade de trazer um dado econômico e essa foi a origem da construção do PIB, que consumiu um ano e meio foi baseado sob a ótica da renda e teve a colaboração de cinco especialistas do exterior.
O PIB, disse Bruno, é uma fotografia objetiva e muito específica de determinado setor e quando a gente fala de cultura a gente está falando de questões simbólicas, materiais, que são importantes e contribuem economicamente para o setor. Intenção não só manter a série histórica, mas também ampliar as informações para que a gente possa deixar esse dado mais conciso com a realidade do setor.
E ambos detalharam a escolha metodológica.
Ouça resposta completa, com Jader falando primeiro:
EM – O resultado de tudo isso mostrou exatamente o quê? O que mais surpreendeu vocês?
Resumo: O volume de dinheiro da economia da cultura e criativa surpreendeu. Outra surpresa foi verificar que a parcela de contribuição (3,11%) sobre o PIB total do País esteve cerca do patamar de grupos tradicionais como automobilístico, construção e indústria extrativa.
Foi percebido também que a área cultural e artística que se encontra dentro desses indicadores passa a ser menos expressiva porque a informalidade é muito alta e valor simbólico é altíssimo.
E veem avanços em outras áreas.
Ouça a resposta completa dapor Jader Rosa
EM – Quais são as tendências que vocês veem para os próximos anos.
Resposta dada por Bruno Tuzzi. primeiro:
Resumo: Esse é um padrão globalizado, com economias mais conectadas. Outra é a questão geracional, que no Brasil está virando a pirâmide etária. Digitalização da economia, flexibilização das relações de trabalho, são padrões não só a respeito do Brasil, mas da economia global como um todo.
Foi possível identificar que 50% desse PIB (3,11% do nacional) responde pela tecnologia da informação, que tem elevada participação do setor e isso tem dois aspectos – um para fortalecer essa participação e outro para se analisar outros setores da economia criativa como design ou de setores core da cultura como artes, museus e patrimônio. Esses números dão indicações sobre como fortalecer aspectos que já estão positivos e também corrigir possíveis distorções de temas da participação relativa de cada um dos setores, seja da participação relativa em termos de território.
A pandemia impulsionou a digitalização e seu crescimento tem fator relevante. Abordaram o que pensa sobre o trabalho no futuro e que, como esse setor tem como vetor a criatividade, ele passa a estar em vários tipos de serviços.
Outra coisa que apareceu nesse PIB, que consideram super relevante, é que as indústrias são formadas por micro e pequenas empresas, e elementos como aporte, linha de crédito, são dados que aparecem e fornecem evidências para tomar decisões com base em séries históricas.
Ouça a resposta completa
EM – O que a inteligência artificial vai influenciar nesse PIB?
Resumo: Durante 9 anos a economia criativa foi base a economia tradicional, mas se for comparar o trabalhador da economia criativa, a cada bimestre, o movimento é muito parecido. Quando tem inteligência artificial, o que diferencia ali é a pergunta, que tipo de pergunta que você faz, e é isso que diferencia da máquina.
Então qualificar a pergunta, quantidade de repertório que você vai ter e quando você faz esse input para as máquinas, e são muitas máquinas, desde gerador de imagem, gerador de texto, de vídeo – no ano passado a pauta quente era o metaverso – você vai falar com o ambiente que você quer e ele vai construir com base nesse repertório.
Ouça a resposta completa dada por Jader Rosa
EM – Gostaria que vocês detalhassem cada vetor utilizado para a formação desse PIB. O que são ML, MS?
Resumo: Esse foi um dos trechos mais relevantes da entrevista. Nele se detalha os vetores utilizados para a formação do PIB, que a tendencia da digitalização, da TI, vem crescendo paulatinamente e que os setores mais responsáveis pelas maiores perdas no período foram cinema, rádio e tv e editorial. Representaram 90% das perdas totais.
Ouça a resposta completa da por Bruno primeiro:
EM – O que se observa a partir de 2015 é uma transição do setor cultural e criativo para o digital. É uma transição que está afetando seriamente esses setores?
Resumo: Houve uma transição do consumo. A gente tem uma pesquisa em parceria com o Datafolha de Hábitos Culturais. Por lá é possível avaliar melhor esse tipo de consumo de fruição. A gente identifica que o cinema na pandemia fechou, ninguém teve acesso. Quem consumiu mais quando abriu? Foram os jovens, mas o que mais foi consumido foram as plataformas digitais, os streamings, desde os tradicionais e mais o YouTube.
A gente percebe que a participação do espaço cultural é uma participação coletiva, como o cinema também. Mas tem a questão do custo e na pandemia e isso ficou mais evidente ainda. Então se eu tenho comodidade maior, estou na minha casa, não pego trânsito. A gente conseguiu ver o custo médio.
A retomada está gradativa, não em grande velocidade. Os grandes festivais têm uma lotação, mas as instituições culturais não estão com o mesmo número de público que antigamente. Em compensação o que elas estão ofertando como experiência, como participação também tem mais meios, tem outros caminhos. Pensando em longo prazo não se vê estabilidade, vai ter uma retomada e cabe a nós do setor criamos outros meios de mecanismos para fomentar e atrair essas pessoas a fruição artística e cultural.
Resposta completa por Jader Rosa
EM– Na pesquisa a lei Rouanet está na faixa do 0%. Não dá nem 1%, Vocês acham que a cultura é o primo pobre nessa área toda?
Resumo: A lei Rouanet foi muito atacada nos últimos anos. Por isso é importante o trabalho de formação. Esse coletivo de material são insumos para essa roda girar tanto pro gestor, o produtor e o artista, esse é o nosso objetivo.
Em relação ao desinvestimento da área cultural foi grande, mas não refletiu no PIB.
O trabalhador da cultura e economia da cultura é sempre o dado mais sensível e justamente na pandemia. Não teve nenhum apoio dos informais, quem estava empregado teve o salário congelado ou perdeu o emprego e o que faz crescer esses indicadores, por isso é que pra gente é importante fazer mais pesquisas, ou agregados ao PIB ou com alguma relação com o PIB, porque tem um trabalhador criativo que está lá.
Em compensação super relevante é o setor de moda. É o que mais exporta, é um dos mais tem informalidade, tem uma distribuição territorial relevante. Ela tem uma correlação com território e também com o fazer, com o artesanato, por exemplo, onde os jovens estão perdendo interesse pela tradição para ir trabalhar na cidade ou com a tecnologia em si.
Na hora que a gente traz um dado como esse, veja a relevância da moda. Se a gente pegar os 3 principais da economia criativa está tecnologia da informação, publicidade e moda. É preciso falar disso.
Resposta completa dada Por Jader Rosa.
OBS: No trecho da gravação, citei a quantia de captação de R$ 2 bilhões em 2021 com lei Rouanet e, em outro trecho, R$ 3 bilhões. O número correto para os anos de 2021 e 2022 foi de R$ 2 bilhões.
EM – O que gostariam de acrescentar?
Coisa muito relevante pra gente, muito cara pra gente , é que nesse setor há mais presença de homens branco com qualificação alta. Isso é muito desigual quando comparado com a economia como um todo. E também é o setor que se paga mais.
Então, quanto mais tiver programas de formação, de inclusão produtiva, a gente vai conseguir movimentar isso de forma mais igualitária. É um dado super relevante.
Ouça a resposta Jader Rosa:
PAINEL DE DADOS – O Painel de Dados a que se referiu Jader Rosa, e que consta informações sobre trabalhadores da cultura e a desigualdade do setor de economia criativa, pode ser acessado por esse link. Por ele é possível ter acesso a diversas informações sobre o setor cultural, de várias vertentes, acessíveis por campos de pesquisa.
O Painel de Dados do Observatório Itaú objetiva suprir a lacuna de dados consistentes e atualizados sobre os setores cultural e criativo no Brasil. Esse repositório, que reúne dados socioeconômicos, estudos e análises setoriais e publicações sobre a economia da cultura e indústrias criativas brasileiras, pode ser usado por agentes do mercado, pesquisadores e gestores como forma de avaliar as tendências de médio prazo, bem como a conjuntura desses setores no Brasil, servindo de plataforma de apoio para a tomada de decisões com base em evidências, bem como para a identificação de eventuais gargalos a serem superados nesse mercado.
O Observatório Itaú Cultural é um espaço orgânico de pesquisa, formação e reflexão sobre o setor cultural. Busca, desde 2006 fomentar os debates sobre as produções artísticas e culturais, seja contribuindo para a formulação de políticas culturais, seja através de ações formativas destinadas a artistas, coletivos e produtores. Oferece atividades teóricas e práticas, reflexivas e acadêmicas, com embasamento conceitual e metodológico.
*É Editor-Chefe de VALOR CULTURAL/Marketing Cultural, que têm entre seus propósitos dar visibilidade a bons projetos ou ações, valorizar empresas que praticam patrocínios conscientes e apontar aquelas que fingem ser o que não são no campo da Responsabilidade Social.
SERVIÇO
Homepage: imagem de Mohamed Hassan
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