No fundo, no fundo, ele era um escroque, e assim o definiu a justiça brasileira. Condenado à prisão, alijado de seus bens por dezenas e quiçá centenas de devedores, Edemar Cid Ferreira era a imagem de um banqueiro bem-sucedido dos anos 90 e início de 2000, que amava as artes e mantinha em seu acervo obras que fariam inveja à Pinacoteca.
Eu o vi uma vez, trajado em terno de corte perfeito e calçando sapatos que, se não eram forjados em pele de jacaré, pelo menos aparentavam. Tudo nele combinava – camisa, terno, gravata, sapato e o penteado de magnata que todo magnata que se preza ostenta.
Edemar Cid Ferreira era presidente do Banco Santos e foi a primeira pessoa que autorizei a sair na capa da revista Marketing Cultural, isso em junho de 1998. Por que o fiz? Porque ele mandou publicar nos jornais um Balanço Social, relatando as ações culturais patrocinadas pelo Banco no biênio 1997/1998.
“Quando publicamos isso, estamos nos qualificando e construindo a nossa marca”, disse ele, que na época tinha 54 anos.
O Banco Santos S/A estava entre as 15 maiores instituições financeiras e Edemar era considerado entre os dez brasileiros mais influentes da administração cultural do País. Possuía cargos no Conselho Nacional de Política Cultural, Conselho da Fundação Padre Anchieta (mantenedora da TV Cultura), era conselheiro-curador da Bolsa Mercantil e de Futuros, conselheiro da Fundação Bienal, vice-presidente dos Patronos de Teatro Municipal e comissário-geral da Comissão Brasil 500 Anos – Artes Visuais, projeto que ainda hoje está entre os maiores com captação via lei Rouanet.
Participou das discussões que ajudaram a criar as leis de incentivo cultural, inclusive das que geraram a MP dos 100%, no final de 1997, aquela que permite abatimento total do Imposto de Renda devido das aplicações em projetos aprovados pela lei federal.
Se não era “o cara”, estava perto. Mas havia outros e só abri exceção para ele sair na capa quando li a introdução do pioneiro Balanço Social publicado nos jornais. Estava escrito assim:
“O Banco Santos acredita que uma empresa moderna tem obrigações sociais que vão além dos seus próprios limites e que afetam as comunidades às quais ela está ligada.
“A ação social da empresa não deve se limitar à área de seus clientes, fornecedores e funcionários, incluindo-se aí iniciativas para complementar ações estatais nas áreas de alimentação, saúde, educação, habitação, segurança pessoal, aposentadoria e transporte. A ação social de uma empresa deve incorporar atividades culturais, esportivas e de lazer, além de estimular a militância solidária na luta pela preservação do meio-ambiente.
“O Banco Santos acredita que o seu investimento nessas ações contribuiu para o desenvolvimento da comunidade, reafirmando o propósito de participar, através da cultura, na construção da cidadania. Assim, o Banco Santos publica seu primeiro balanço social com as atividades e projetos de quem vem participando”. E trouxe a lista de projetos apoiados com aplicação total de R$ 1,5 milhão.
Confesso que nem me lembrava desse discurso. E fiquei espantado ao ler que, 25 anos atrás, um dirigente de empresa, principalmente de Banco, tinha pensamentos alinhados aos que defendo hoje sem muito sucesso.
Porque sempre achei que uma empresa deveria ir além da busca pelo lucro e reconheço que essa etapa tem sido ultrapassada por quem aderiu a questões de Sustentabilidade e agenda ESG.
Mas ESG é sigla de uma política importada e como brasileiro adora valorizar quase tudo o que vem de fora, nossos dirigentes ainda não entenderam que lá, na Europa principalmente, questões sociais estão quase todas resolvidas e por isso, dentro dessa agenda, valorizam mais o quê? Acertou: meio-ambiente.
E nossos dirigentes obedientes embarcaram nessa prioridade. Se duvidar, basta olhar os Relatórios Anuais de Sustentabilidade, Integrado, ou o que mais for criado para sensibilizar acionistas, e compreenderá que o pensamento da preservação do planeta, nobre que é, está na lista das maiores preocupações, assim como é a de europeus e americanos. Mas nossa realidade é outra.
Já escrevi e defendo que toda empresa tem razão social, até para criar um nome, como exige o Ministério da Fazenda. E não é só apoiar projetos sociais ou culturais; é ter a mentalidade que Edemar externou em sua introdução ao Balanço Social.
“A ação social da empresa não deve se limitar à área de seus clientes, fornecedores e funcionários, incluindo-se aí iniciativas para complementar ações estatais nas áreas de alimentação, saúde, educação, habitação, segurança pessoal, aposentadoria e transporte. A ação social de uma empresa deve incorporar atividades culturais, esportivas e de lazer, além de estimular a militância solidária na luta pela preservação do meio-ambiente.
Seria equivocado dizer que a maioria das grandes empresas brasileiras não enveredou por esse caminho. Números divulgados pelo GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) mostram que a contribuição direta via Investimento Social Privado está na média de R$ 3,5 bilhões por ano em ações que beneficiam organizações e projetos de áreas sociais. Mas são raras as que não miram somente suas comunidades ou “stakeholders”.
Mas, e a cultura?
“O que constrói uma marca? Para nós, é a cultura”, definiu Edemar naquela entrevista.
E esse sentimento se perdeu. Nesse artigo, cujo link está logo abaixo, foi feito um balanço de como as empresas agem quando se trata de Investimento Social Privado com aportes diretos e a dependência a que se entregaram quando pensam em projetos culturais: “Tem lei de incentivo? Não? Então tchau!”.
E nesse mesmo artigo pode se ver a discrepância que existe entre os investimentos em projetos sociais, como saúde, educação, e os culturais. A própria lei pode estar apequenando o volume de dinheiro que poderia ser aplicado em cultura.
O sentimento de se fortalecer a marca por meio da cultura deu lugar ao simples e insensível interesse no incentivo fiscal oferecido.
E não se publicam mais Balanços Sociais.
Porque preferiram construir marcas na base do Tik Tok.
OBS: Escrevi esse artigo após ler matéria publicada no Estadão em 17/05/2023, com Edemar Cid Ferreira, que pode ser vista por aqui.
*É Editor-Chefe de VALOR CULTURAL/Marketing Cultural , que tem entre seus propósitos dar visibilidade a bons projetos ou ações, valorizar empresas que praticam patrocínios conscientes e apontar aquelas que fingem ser o que não são no campo da Responsabilidade Social.
Para conhecer a matéria original da revista clique aqui.
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