
Pensei que a gente ia conversar sobre Circo e acabei aprendendo o que é ser palhaço, ensinado por quem está nisso há quatro décadas.
Sempre disse aos repórteres: se é para perguntar só o que está na pauta, vou preferir mandar um office-boy com gravador e pedir ao redator escrever. Pra quê repórter?
Pensei nisso no meio da conversa com Richard Riguetti, que na minha cabeça era um especialista em circo e acabei descobrindo que ele é mais do que isso – ele é um palhaço. E não um palhaço qualquer.
O motivo surgiu com o interesse em divulgar o “Palhaço na Porta de Casa”, projeto de circulação das companhias, trupes e artistas egressos da Escola Livre de Palhaços, conhecida como ESLIPA, e que está percorrendo arenas cariocas com programação recheada de risadas e reflexões sobre cidadania. Foram essas reflexões que me chamaram a atenção (ver o link sobre essa ação mais abaixo), mas a conversa enveredou para o interior de um outro universo – o da palhaçaria.
Rir é o melhor remédio, já ouvimos isso, mas o que você sabe sobre essa arte que remonta a tempos antigos bem antes de Jesus Cristo?
“O palhaço utiliza a linguagem circense, a linguagem teatral, a linguagem da dança, a linguagem das artes plásticas, a linguagem do cinema, da televisão, mas ele não é televisão, ele não é cinema, ele não é circo – ele é palhaço. Um palhaço que vai para o Hospital é totalmente diferente do espetáculo do palhaço que vai para a rádio, mas é palhaço. A linguagem do palhaço é autónoma”.
E se tem alguém para falar com autoridade sobre esse assunto é Richard Riguetti, que possui 45 anos de experiência com trabalhos realizados nas áreas de cultura e arte-educação, em comunidades de baixa renda, em empresas como Petrobras e Tanspetro, coordenando e gerenciando Programas Culturais focalizados na inclusão social, bacharelado em Artes Cênicas, formado em MBA de Gestão Federal pela Universidade Cândido Mendes e em música pela Escola Villa Lobos.
Mas, durante e depois de tudo, ele não deixou de ser o palhaço Café Pequeno, que, juntamente com a palhaça Currupita (Lilian Moraes), fundaram a Escola Livre de Palhaços.
E nessa entrevista ele contou como é a relação dessa arte com a cidadania, com a educação, com a saúde, e como sobrevivem esses andarilhos que se espalham por espaços diversos e geografias vizinhas ou distantes.
Acompanhe as respostas com trechos em texto e íntegras em áudio:
EDUARDO MARTINS – Eu sou fã do circo e eu estava olhando aqui o seu projeto, que eu recebi o release aí de vocês, mas a gente não publica release; a gente quer sempre dar um algo a mais. Então queria que você contasse um pouco a sua história, a história do teu grupo e como é que vocês chegaram nesse projeto. Enfim, conta um pouquinho aí de vocês.
RICHARD RIGUETTI – O projeto é uma proposta da Escola Livre de Palhaços (ESLIPA), que é a primeira escola do gênero no Brasil e a única gratuita. Ela foi fundada em 2012 e já tem alunos de 7 países da América do Sul e de 19 Estados do Brasil. Esse ” Palhaço Na Porta de Casa”, é um palhaço que visa a política de primeiro emprego. Então, nós utilizamos 8 trupes que são da cidade e do Estado do Rio de Janeiro para formar esse Painel de atividades que nós estamos propondo para serem realizadas. Ele foi vencedor do edital FOCA 2022. E aí, com esse recurso, a gente realiza cada trupe, em cada equipamento. Uma oficina de circo de palhaço, de teatro, de rua, de acrobacia de malabares, um cortejo circense e um espetáculo e uma roda de conversa. Depende se tem alguma demanda lá naquele local.
(Ouça a resposta completa)
EM – Ao longo da sua história, como é que você tem sobrevivido, vamos dizer assim?
RR – Essa é uma boa pergunta, eu tenho 45 anos de vida artística e me pergunto isso todo dia. Mas tem várias opções, ainda insuficientes para dar conta de toda a demanda cultural existente no Brasil como um todo e do Rio em particular. Mas nós temos os editais municipais e os estaduais e federais. Os editais municipais tiveram um crescimento a partir da administração do Eduardo Paes. Na parte estadual e federal nós tivemos uma diminuição drástica no governo Bolsonaro, já que ele via a educação e a cultura praticamente como coisas indesejáveis na sua política. Existe também a venda de espetáculos. Existe também a bilheteria. Existe uma coisa que é maneira muito antiga que é nós passarmos o chapéu, que a maior parte das trupes de palhaços fazem.
(ouça a resposta completa)
EM – Gostaria que você detalhasse um pouquinho mais sobre esse projeto, quando você fala sobre cidadania, educação e entretenimento… o que exatamente pode ser desenvolvido dentro de cada item desse? O que vocês desenvolvem dentro desses segmentos? Como fazem isso?
RR – A primeira questão é que a gente vê a arte não como só uma ação espetacular, como entretenimento que ela é; nós vemos as apresentações, as atividades, como um ato que liga o artista e o cidadão.
Na questão da Educação a gente sempre se preocupou com as oficinas de formação. A escola ESLIPA é uma escola que se preocupa com a formação, aperfeiçoamento e a qualificação da arte da palhaçada e do brincante. Então é uma escola, é a primeira escola da América Latina que pensa a formação, qualificação e aperfeiçoamento de uma forma mais demorada, mais alongada. E o aspecto da cidadania é porque a gente provoca sempre, nas atividades, a reflexão através das rodas de conversa.
(ouça a resposta completa)

EM – Então vamos falar um pouquinho sobre o mercado de circo, que mudou ao longo do tempo. Gostaria que você me desse um quadro desse desenvolvimento, do mercado de circo. Quem é que está conseguindo sobreviver nele? Se quem quiser entrar, o que que precisa fazer? E as dores que vai sofrer, né?
RR – Eu não sou especialista em circo; a minha linguagem, a minha poética e o meu ofício é da palhaçada e, por um período, o palhaço ficou muito identificado com o circo. Mas eu vejo um palhaço como um é que ocupa diversos espaços hoje em dia. Você tem o palhaço no circo, você tem um palhaço no hospital, você tem no abrigo, você tem na escola, na praça, você tem no picadeiro, você tem no palco, você tem na televisão, você tem na rádio, você tem no cinema. Então eu procuro entender o palhaço como uma linguagem e, o local onde está, ser um suporte. Então o circo é um suporte que abraçou a arte do palhaço durante um período aí de 300 anos, mas ele está em outros locais também, então eu sempre me convido a pensar a arte da palhaçada como uma arte que ocupa múltiplos espaços. Sendo assim, ele abre um campo de trabalho. O mercado de trabalho da arte da palhaçada é muito amplo, e ele pode se encaixar de acordo com os interesses do seu artista.
(ouça toda a resposta, onde são citados vários exemplos)
EM – Noto que tem crescido bastante esses grupos que levam a arte da palhaçaria, principalmente, para hospitais com crianças com câncer e outros similares. Isso tem crescido bastante, não?
RR – Tem nos últimos 30 anos, mas sempre houve, sempre existiu. Se você for fazer pesquisas históricas você vai encontrar o palhaço nos hospitais há muito tempo, só que houve uma especialização dessa ação. Cem anos atrás o palhaço que trabalhava no espetáculo circense também ia ao hospital, mas houve uma evolução nesse sentido para que o palhaço que vai ao hospital, vai inserido dentro do contexto. Ele não vai lá pra fazer cena, ele vai lá para fazer uma relação – é o que chamamos de palhaço relacional. Ele vai lá para se relacionar com os pacientes do hospital. Isso trouxe uma qualidade no serviço dos palhaços que fazem esse estilo de atividade.
(ouça a resposta completa)
EM – A gente fala em hospital, mas tem um campo grande também nas escolas, como você já citou.
RR – A cultura e a educação deveriam andar de mãos dadas cada vez mais, não é? E a saúde também. Porque a saúde, a cultura e a educação estão interligadas, né? Antigamente era o Ministério da Saúde, Educação e Cultura. São áreas que dialogam muito bem, porque o melhor remédio é uma boa risada, né?
A gente sabe que a saúde vem de uma ação esperançosa na vida e o palhaço é aquele que traz a esperança através do riso, através da ingenuidade, através da graça. Então, é super pertinente estar na saúde, na educação e na cultura e na educação o palhaço tem uma lógica diferente, né? A escola é aquela que celebra o acerto. Mas pune o erro. E o palhaço é aquele que pode errar, é aquele que tropeça, que cai, que bate com a cabeça, que dá uma martelada no dedo, não é? Então ele erra e, ao errar, as pessoas se identificam com ele. Então, a arte do palhaço colabora muito com as escolas. No sentido de fazer com que aquela comunidade escolar perceba que existe o certo e existe o errado e que nós podemos celebrar os dois. O errado é aquele que fez uma forma diferente. Então as escolas deveriam celebrar também o acerto e o erro.
(ouça a resposta completa)
EM – Pois é, eu liguei para você para a gente falar sobre circo. No fim, nós vamos falar uma coisa ainda mais interessante, que é a palhaçaria. Então já vou inverter aqui a ordem da nossa matéria. Você tem ideia de quantas pessoas existem hoje no Brasil vivendo de palhaçaria?
RR – Nós não temos essa estatística, mas nos 12 anos de funcionamento da ESLIPA nós já formamos mais de 200 artistas, e 95% deles estão atuando com essa linguagem e não houve modificação; eles se formaram e continuam trabalhando.
Nós temos companhias em Manaus, nós temos companhia no Pará, no Maranhão, no Rio Grande do Norte, nas capitais, no interior no Ceará, na Paraíba, em Tocantins, em Brasília. Essas companhias, essas trupes, elas estão atuando. Nós temos uma trupe de Santo André, que é a Companhia do Asfalto, que comprou uma van, fizeram um motorhome e saíram de Santo André e estão indo para o Canadá. Agora estão no Peru, já chegaram no Peru. É um casal com dois filhos. Eles chegam na cidade, montam um espetáculo na praça, passam o chapéu e, no dia seguinte, vão para outra cidade.

E uma companhia que se chama Laguz, que é do Ceará, Fortaleza. Eles compraram uma Kombi, transformaram no motorhome, saíram de Fortaleza e, no momento, estão na Patagônia, lá no sul da Argentina, num frio danado fazendo a mesma coisa. Vão de cidade em cidade, montam o seu espetáculo na praça, passam o chapéu e vão para a próxima cidade. Vendem também espetáculos para as escolas, para as Prefeituras, para os sindicatos, para os movimentos sociais, e assim eles vão percorrendo esse território todo de forma exemplar.
(ouça a resposta toda)
EM – Beleza, Richard, muito legal a nossa conversa, vou trabalhar com carinho em cima dessa matéria.
RR – Obrigado, Eduardo. É muito bom essa tua percepção da questão do que é a arte da palhaçada e o que é o Circo, visto que a nossa escola vê a palhaçada como uma linguagem autônoma. O palhaço utiliza a linguagem circense, a linguagem teatral, a linguagem da dança, a linguagem das artes plásticas, a linguagem do cinema, da televisão, mas ele não é televisão, ele não é cinema, ele não é circo, ele é palhaço. O suporte é que faz com que ele se desenvolva, é claro que interfere. Mas um palhaço que vai para o Hospital é totalmente diferente do espetáculo do palhaço que vai para a rádio, mas é palhaço.
Então a gente tem feito um trabalho para conscientizar a sociedade de que a linguagem do palhaço é autónoma. Ela contém o circo, o teatro, a dança, as artes plásticas, o cinema, a saúde, o rádio, a televisão, mas não é a televisão, não é o circo – é palhaço.
*É Editor-Chefe de VALOR CULTURAL/Marketing Cultural, que têm entre seus propósitos dar visibilidade a bons projetos ou ações, valorizar empresas que praticam patrocínios conscientes e apontar aquelas que fingem ser o que não são no campo da Responsabilidade Social.
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