Nos últimos anos, a agenda de diversidade, equidade e inclusão (DEI) ganhou protagonismo no ambiente corporativo. Movimentos globais como Black Lives Matter e as crescentes pressões de investidores fizeram com que grandes marcas assumissem compromissos públicos e mensuráveis com a justiça social. Contudo, análise comparativa, realizada por Valor Cultural, dos relatórios de sustentabilidade e DEI de 2023 e 2024 de empresas com atuação no Brasil revela um cenário mais cauteloso — e, em alguns casos, um recuo explícito.
Entre as companhias pesquisadas, oito multinacionais apresentaram mudanças consistentes na forma como abordam temas ligados à diversidade. Termos como “equidade racial”, “justiça social”, “antirracismo” e “identidade de gênero” desapareceram ou foram diluídos em expressões mais genéricas como “bem-estar”, “acolhimento” ou “cultura organizacional”. A retirada desses vocabulários não necessariamente implica na extinção de programas internos, mas revela um movimento de despolitização da comunicação institucional.
Empresas como Coca-Cola, Microsoft e Google mantiveram iniciativas estruturais, como formação de lideranças diversas e apoio a comunidades vulneráveis, mas deixaram de destacar essas ações em seus relatórios ESG principais. Já Amazon, Toyota e Ford reposicionaram suas seções de diversidade para dentro de capítulos mais amplos, suprimindo indicadores públicos e evitando vocabulário que possa ser percebido como ativista.
Na prática, a maioria dessas corporações segue investindo em inclusão — especialmente no Brasil, onde programas sociais continuam em execução. O que muda é a ênfase: o discurso deixou de confrontar desigualdades históricas para adotar um tom mais técnico, neutro e corporativo. Essa mudança parece menos relacionada a convicções internas e mais a um cálculo estratégico diante da crescente polarização política, especialmente nos Estados Unidos.
Por outro lado, empresas como Vale, Gerdau, Magalu e Banco do Brasil, entre outras pesquisadas, mantiveram, e em alguns casos até reforçaram, seus compromissos públicos com a agenda DEI. Relatórios de 2024 dessas companhias reafirmam metas raciais e de gênero, detalham a evolução de indicadores e ampliam o espaço dedicado ao tema. O vocabulário segue firme: interseccionalidade, antirracismo, acessibilidade e equidade são palavras que continuam presentes nos textos e nos planos de ação.
Esse contraste sinaliza uma clivagem importante no posicionamento das grandes empresas. Enquanto algumas optam por recuar na exposição de temas considerados “woke” para proteger suas marcas de críticas conservadoras, outras seguem apostando em uma abordagem transparente, mesmo diante de resistências. A estratégia, portanto, não é uniforme, e reflete tanto as culturas organizacionais quanto os contextos geopolíticos em que essas empresas operam.
A tendência de “despolitização da inclusão” não significa, necessariamente, abandono, pois muitos programas permanecem, mas agora aparecem em relatórios paralelos, anexos pouco divulgados ou em páginas institucionais secundárias. O que está em disputa é a forma de contar a história — e o grau de visibilidade que as empresas desejam (ou suportam) dar a essas pautas.
Especialistas apontam que o discurso corporativo sobre diversidade está passando por uma fase de “reacomodação simbólica”: o conteúdo ainda existe, mas o tom mudou. O engajamento público dá lugar a mensagens mais discretas e padronizadas, e as campanhas de marketing de impacto cederam espaço a comunicações internas e dados técnicos. Isso pode reduzir o alcance transformador das ações, mas também proteger as marcas em cenários voláteis.
Com base em pesquisa de Valor Cultural, apresentamos os diagnósticos comparativos de 16 empresas — oito que mantiveram políticas públicas consistentes em diversidade e inclusão, e oito que modificaram substancialmente sua comunicação institucional entre 2023 e 2024. A análise busca não apenas identificar alterações formais nos relatórios, mas interpretar as motivações estratégicas e as possíveis consequências desse reposicionamento.
A seguir, você confere o detalhamento de cada empresa, com trechos comparativos, indicadores, ações mantidas ou eliminadas, e uma leitura interpretativa das escolhas feitas. O objetivo não é julgar, mas compreender como o discurso sobre diversidade se transforma — e o que ele nos revela sobre firmeza de posicionamentos e o momento que vivemos.
Para facilitar a leitura montamos dois relatórios com análise sobre oito empresas em cada um, alternando entre aquelas que mantiveram suas políticas de diversidade e aquelas que recuaram ou suprimiram em seus posicionamentos sobre essas questões.
Os relatórios podem ser acessados pelos links abaixo.
Conheça Quem Manteve e Quem Modificou Políticas de Diversidade (Parte 1)
Conheça Quem Manteve e Quem Modificou Políticas de Diversidade (Parte 2)
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