Setor Cultural Aprendeu a Captar Melhor, Mas Permanece Como Analfabeto Digital

Enquanto o mercado debate regulação e direitos autorais da IA, a maioria dos que buscam patrocínio cultural ainda não incorporou essa tecnologia de forma consistente em suas rotinas.

Dados da pesquisa TIC Domicílios 2024 (https://cetic.br/pt/pesquisa/domicilios/) são contundentes: entre os usuários de internet da classe A, 69% já utilizam IA generativa no Brasil. Nas classes D e E, esse número cai para 16%. No total, são 50 milhões de brasileiros usando Inteligência Artificial — mas os benefícios seguem concentrados em quem já tem mais renda e escolaridade: 59% dos usuários com ensino superior utilizam a tecnologia, contra 17% entre aqueles com ensino fundamental. O setor cultural vive exatamente nessa fratura. Artistas, produtores independentes e gestores culturais — a maioria sem acesso à tecnologia, sem formação e sem tempo — estão sendo deixados para trás numa transição que não vai esperar por eles.

É bom saber que essa pesquisa não é anual. A TIC Cultura não faz parte do conjunto de cinco pesquisas anuais do Cetic.br — ela tem periodicidade irregular, sendo realizada com outras periodicidades junto com governo, organizações sem fins lucrativos e provedores. As edições anteriores foram em 2016, 2018, 2021, 2023 e 2024 (publicada em outubro de 2025) — ou seja, sem ciclo fixo.

O levantamento do TIC Cultura 2024 confirma ainda que o uso de inteligência artificial nos equipamentos culturais brasileiros ainda é incipiente. Arquivos lideram com 20% e cinemas com 16% — os únicos acima de 10%. Pontos de cultura ficam em 9%; bens tombados, museus e teatros em 4%; e bibliotecas em apenas 2%. Vale notar que a pergunta foi respondida somente por equipamentos com departamento de Tecnologia de Informação (TI) — o que significa que esses números provavelmente superestimam o uso real no conjunto do setor.

Isso quer dizer que, na prática, a maioria dos espaços que recebem ou buscam patrocínio cultural ainda não incorporou IA de forma consistente em suas rotinas. Ao mesmo tempo, quase todos já estão conectados, têm computadores, notebooks e celulares próprios, e usam ferramentas digitais no dia a dia. Há uma base instalada, mas não uma “virada de chave” tecnológica centrada em IA.

O que o mercado está vendo (e o que está ignorando)

O debate público sobre IA e cultura concentrou-se, compreensivelmente, nos direitos autorais. Estudo global da CISAC — Confederação que representa mais de 5 milhões de criadores — aponta que músicos e profissionais do audiovisual podem perder, respectivamente, até 24% e 21% de suas receitas totais até 2028, por efeito combinado do uso não autorizado de obras para treinar IAs e da substituição de conteúdo humano por conteúdo gerado automaticamente — isso equivale a R$ 116 bilhões em perdas acumuladas. No Congresso, o Projeto de Lei 2338/2023 — aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e em análise na Câmara desde março de 2025 — prevê autorização prévia e remuneração para o uso de obras no treinamento de IAs, mas a votação foi adiada para este ano em meio a impasses políticos.

São batalhas legítimas e necessárias. Mas enquanto o setor olha para o tribunal, uma segunda crise avança silenciosa: a exclusão digital dos próprios criadores do novo ecossistema.

Um artista que não sabe usar ferramentas de IA não vai apenas perder renda para sistemas automáticos. Vai perder capacidade de captar recursos, de apresentar projetos, de se comunicar com patrocinadores, de disputar editais num ambiente onde seus concorrentes já contam com assistentes digitais. A desigualdade tecnológica não é uma ameaça futura — ela está acontecendo agora, edital por edital.

Um artista que não sabe usar ferramentas de IA não vai apenas perder renda para sistemas automáticos. Vai perder capacidade de captar recursos, de apresentar projetos, de se comunicar com patrocinadores.

Por que isso é uma oportunidade de patrocínio e não filantropia?

Aqui está o ponto que o setor ainda não articulou: capacitar artistas e produtores culturais em IA é uma das formas mais eficientes de patrocínio que uma empresa pode fazer em 2026, com retorno de reputação que dificilmente festival ou exposição entrega.

Enquanto o uso real avança aos poucos, a IA já entrou na pauta de empresas, órgãos públicos e organismos internacionais ligados à cultura. O Ministério da Cultura, por exemplo, tem colocado IA e plataformas de streaming como temas estratégicos, associando-os à ideia de soberania cultural, transparência de algoritmos e defesa da diversidade na era digital. Em paralelo, programas de formação e debates públicos sobre “inteligência artificial e cultura” começam a surgir, indicando que o assunto veio para ficar.

Para quem escreve projetos e faz captação, isso cria um tipo de pressão silenciosa. Editais, patrocinadores e conselhos internos começam a perguntar “como o projeto incorpora IA”, mesmo quando a equipe ainda não teve contato estruturado com essas ferramentas. O risco é transformar IA em palavra mágica de projeto, sem lastro em processos, parceiros ou competências instaladas

O Banco do Brasil entendeu parte disso. Ao lançar o edital do CCBB 2026-2027, incluiu pela primeira vez cursos presenciais de capacitação para produtores culturais — reconhecendo explicitamente que “projetos de qualidade não avançavam porque as pessoas tinham dificuldade na escrita e apresentação”. Se o BB entendeu que capacitação é parte do patrocínio, a próxima fronteira é óbvia: capacitação em IA é parte do patrocínio cultural de 2026 em diante.

O campo existe, mas ainda são ações isoladas 

As iniciativas de capacitação em IA voltadas ao setor cultural no Brasil são promissoras, mas ainda isoladas. O curso gratuito da Fundação Itaú em parceria com a ESPM-Rio — 60 horas realizadas entre agosto e outubro de 2025, com foco em IA aplicada a música, vídeo e captação de recursos — e os programas de economia criativa do Instituto Motiva mostram que o movimento começou.

O que ainda não existe é continuidade: nenhum desses programas tem caráter permanente, cobertura nacional ou alcance que ultrapasse centenas de profissionais.

Outro ponto crítico é a forma como a IA chega ao setor cultural. Em muitos casos, ela aparece associada a plataformas globais que oferecem serviços de recomendação, análise de público ou automação de campanhas, com pouca transparência sobre como os dados são tratados. Em um cenário em que o MinC fala explicitamente em soberania cultural na era digital, isso não é detalhe técnico: é parte de uma disputa sobre quem controla dados, narrativas e fluxos de circulação cultural.

Para projetos de patrocínio, isso significa que “usar IA” não pode ser apenas contratar uma solução pronta e entregar a ela dados de público, engajamento e programação, sem contrapartida para o ecossistema local. Se a inteligência fica toda do lado da plataforma, o projeto corre o risco de fortalecer intermediários externos e fragilizar a capacidade dos próprios equipamentos e redes culturais de conhecer e cuidar dos seus públicos.

Os dados da TIC Cultura reforçam que o gargalo não é apenas infraestrutura: é gente. A pesquisa aponta que a digitalização avançou mais rápido do que a capacidade das equipes de transformar ferramentas em processos consistentes, o que se reflete na baixa adoção de IA em comparação a outros recursos digitais. Em termos práticos, isso significa que qualquer discurso de IA em projeto de patrocínio que não inclua formação e acompanhamento de equipes tende a ser frágil.

Empresas que patrocinam festivais são associadas ao presente. Empresas que capacitam criadores para o futuro são associadas ao amanhã.

O “contrário” como oportunidade estratégica

Para produtores culturais, captadores e proponentes, o quadro não é apenas um problema. É também uma oportunidade. Se a IA ainda é incipiente no setor, mas o interesse de patrocinadores e formuladores de política cresce, há espaço para projetos que se posicionem como pontes realistas entre infraestrutura digital já existente e uso responsável de inteligência artificial.

Na prática, isso pode significar:

  • Propor pilotos de IA com escopo bem definido (por exemplo, mapeamento de público, organização de acervo, automação de partes da comunicação), em vez de prometer “revolução digital” em um único ciclo de projeto.
  • Incluir módulos de formação em IA e dados para equipes, artistas e gestores culturais como parte central do escopo, e não como detalhe opcional.
  • Definir desde o início quais dados serão coletados, onde serão armazenados, quem terá acesso e como serão usados para fortalecer a inteligência do próprio equipamento e da rede cultural, alinhando-se à agenda de soberania cultural e não apenas às métricas das plataformas.
  • Dialogar com patrocinadores sobre riscos reputacionais ligados a IA — como vieses algorítmicos e exclusão de públicos — e posicionar o projeto como espaço de experimentação responsável, com atenção à diversidade e à transparência.

Sob essa perspectiva, adotar uma postura oposta ao discurso de exagero promocional torna‑se um diferencial competitivo. Em vez de prometer mais do que conseguem entregar, proponentes que reconhecem os limites atuais de adoção de IA, apresentam dados concretos sobre essa realidade e oferecem caminhos factíveis de evolução tendem a se destacar como parceiros mais confiáveis e estratégicos para patrocinadores.

Pergunta para quem patrocina

Num cenário em que a inteligência artificial ainda é exceção nos equipamentos culturais, mas já virou palavra de ordem em agendas corporativas, a questão para quem investe em cultura talvez não seja “se” vai apoiar projetos com IA, mas “como” vai fazer isso

Você, como patrocinador ou decisor de investimento cultural, quer ser apenas a marca que coloca o logo em projetos que alimentam plataformas externas, ou está disposto a apoiar iniciativas que construam competência, responsabilidade e soberania de dados dentro do próprio ecossistema cultural brasileiro?

Aqui estão três ativos de reputação que dificilmente se constroem de outra forma:

Autenticidade ESG. Não é mais suficiente declarar compromisso com diversidade e inclusão. Um programa que leva IA para artistas periféricos, povos de terreiro, grupos indígenas ou produtores de regiões sem acesso é um dos poucos movimentos de impacto verificável — e verificado por jornalistas, investidores e pelo próprio movimento cultural.

Associação com o futuro. Empresas que patrocinam festivais são associadas ao presente. Empresas que capacitam criadores para o futuro são associadas ao amanhã. Num momento em que toda grande marca quer ser percebida como inovadora, o território da IA aplicada à cultura ainda tem espaço para protagonistas.

Artistas formados num programa de capacitação desenvolvem lealdade de longo prazo com quem investiu neles — bem diferente do patrocínio transacional de um evento. O produtor que aprendeu a usar IA com o suporte da empresa X vai citar essa empresa por anos.

Janelas de diferenciação fecham rápido. As iniciativas existentes — pontuais, recentes e sem escala nacional — mostram que o movimento começou, mas ainda não tem dono. A empresa que sair da fragmentação e construir um programa contínuo, abrangente e com alcance real vai definir o padrão — e todas as seguintes vão parecer seguidoras.

A pergunta que fica para os gestores de patrocínio cultural das grandes corporações brasileiras é direta: sua empresa vai liderar essa construção — ou vai chegar quando o território já estiver ocupado?

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