Fazendo Arte: Espaço Cultural Para Formação de Cidadãos Transformadores

Um ambiente acolhedor para criar, sonhar, conviver e formar cidadãos atuantes e críticos de seus espaços sociais. Assim é o Espaço Cultural Fazendo Arte, no Rio Comprido, bairro da Zona Central do Rio de Janeiro. O projeto valoriza e fortalece os participantes de todas as idades por meio de atividades educativas e culturais que incluem oficinas de cinema, teatro, zumba, muay thai, inglês, percussão, contação de histórias, capoeira, fotografia e artesanato. A proposta é ser um instrumento de aprendizado e trabalho que ajude a suprir os diferentes tipos de carência que permeiam a população do Complexo do Turano.

O Espaço Cultural Fazendo Arte é uma iniciativa com história. Tornou-se autônomo em 2000, mas é originário no Centro Comunitário Manoel Vitorino, criado em 1990. O projeto nasceu dois anos após a ação de um grupo de mães da localidade da Matinha, comunidade do Turano, e ganhou força fundamental para a sua sobrevivência e desenvolvimento quando o ator profissional Evandro Machado, hoje com 40 anos, se encantou com as artes cênicas aos 9 anos em uma oficina de teatro na instituição. De repente, aos 17 anos, inspirado por uma dívida de gratidão pelo projeto por ter descoberto a sua vocação tão cedo, tornou-se responsável pelo Fazendo Arte, evitando que o espaço fechasse e criando atividades gratuitas durante todos os dias da semana.

Biblioteca comunitária: para exercitar também a mente

“O projeto é parte indissociável da minha vida, cresci aqui dentro. É uma responsabilidade muito grande, mas também é muito gostoso ser referência. Fico feliz quando alguém rebate um comentário como, por exemplo, ‘Essa comunidade é muito morta, não tem nada’, dizendo: ‘Não, tem o Fazendo Arte! Tem menino de lá na novela e um outro está fazendo faculdade de Cinema’. Fico feliz em podermos proporcionar isso. Só é uma pena não termos condições financeiras de atender à comunidade inteira”, conta Evandro, coordenador do projeto.

São grandes os desafios para cumprir a missão de construir justiça social por meio da arte. Além dos recursos financeiros modestos, os problemas passam também por uma comunidade desacreditada, pela falta de emprego, qualificação profissional e por um sério problema no seio familiar.

“A violência urbana cresce e falta a família abraçar as crianças de fato. Quando não há essa estrutura familiar, os jovens acabam tendo filhos cedo e tudo fica mais problemático. Lidar com o ser humano é difícil. Em uma ocasião, por exemplo, produzimos uma peça e o combinado era vender um ingresso a R$ 2, um real para quem vendesse a entrada e o outro para a instituição. Um rapaz então me disse: ‘Minha mãe falou que não é para eu pagar, não. É para, quando começar a peça, pular o muro do vizinho e ver a apresentação lá de cima’. Enquanto a gente trabalha o social e o respeito, às vezes, a própria família não ajuda e isso nos desmotiva um pouco. Por outro lado, me dá força para continuar. Se eu morrer hoje, morro satisfeito porque minha parte estou fazendo”.

Evandro Machado: falta à família abraçar a criança.

DESAFIO Manter a integridade do imóvel – que inclui uma casa de dois andares, estúdio, biblioteca e anfiteatro – e cerca de dez oficinas funcionando de forma gratuita para 140 crianças, jovens e adultos não é nada fácil. Todos os instrutores trabalham voluntariamente e parte do dinheiro sai mesmo do bolso de quem está envolvido no projeto. Quando a situação aperta, são feitas campanhas no Facebook (facebook.com/fazendoarte.org.br) para arrecadar materiais como papel higiênico, copos descartáveis etc.

No início dos anos 2000, com a situação cadastral e jurídica da instituição toda em dia, o projeto passou a ser inscrito em editais de fomento. Após algumas tentativas frustradas, uma grande vitória foi conquistada em 2013 ao ser finalista na etapa nacional do Prêmio Itaú-Unicef e ganhador da premiação regional que apoia projetos que oferecem ao público infanto-juvenil ações educativas, culturais ou de proteção social.

“O pessoal do prêmio ficou surpreso com a quantidade de atividades que mantemos. Os R$25 mil ajudaram na reforma do telhado, que tinha goteiras, e permitiu criarmos um espaço para guardar os nossos figurinos.”

Em 2016, um novo apoio, desta vez do MetrôRio. A parceria, muito bem-vinda, foi marcada por altas exigências de retorno e expectativa de verbas revistas para baixo.

Este ano, o projeto cultural de realização de oficinas livres de artes foi aprovado para conseguir o valor de R$ 193.931,58 via Lei Municipal de Incentivo à Cultura do Rio de Janeiro, mais conhecida como Lei do ISS. A fase agora é de buscar captar recursos junto aos contribuintes incentivadores.

Estúdio também conta somente com voluntários.

“Estamos na luta ainda. Hoje temos apenas a ajuda da padaria Pão & Companhia, na Tijuca, que nos fornece pães. Se a gente conseguir R$120 mil desse recurso para nos sustentar durante um ano vamos tocando o barco. Dessa forma, poderíamos, ao menos, pagar em torno de R$ 600 por mês para as passagens de 15 instrutores e os lanches dos participantes.”

Para nem pensar em se abater, a receita é olhar para os muitos impactos positivos do Fazendo Arte. Crias do projeto já participaram de mais de dez filmes como Cidade de Deus, Tropa de Elite, Bendito Fruto, Totalmente Inocentes e produções como Palace II e Saramandaia. Este ano, quatro alunos do pré-vestibular conquistaram bolsas de 100% na Fundação Cesgranrio.

Evandro ensina a fórmula para espantar o desânimo. “A gente não pode fazer nada esperando o retorno do ser humano, isso aprendi com a minha vida espiritual. Temos que fazer o bem sem olhar a quem. É o que sempre falo para os voluntários: se você faz algo para o bem, sua espiritualidade vai bem, sua vida e saúde também vão bem. Cada um de nós tem um motivo para estar aqui. O bom é descobrir a razão e fazer dessa passagem uma coisa maravilhosa. Isso é o que eu acredito.”

SERVIÇOEspaço Cultural Fazendo Arte: www.fazendoarte.org.br/principal. Facebook: Facebook: facebook.com/fazendoarte.org.br/. E-mail: contato@fazendoarte.org.br

A seção Histórias que Deram Certo não se limita a mostrar somente projetos que tiveram sucesso financeiro. Seu objetivo principal é tornar público iniciativas que realmente fazem diferença para o aprimoramento dos valores humanos, baseadas em metodologia, eficiência organizacional, transparência e perseverança.

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