Pela leitura do currículo publicado no final dessa matéria, nota-se que autoridade não falta a Kelly Lima para abordar temas que estão incomodando diversas pessoas quando se trata de avaliar os efeitos das novas diretrizes adotadas pelas empresas, refletidas pela sigla ESG, que têm norteado seu comportamento diante dos desafios envolvendo o meio ambiente, sua própria governança e preocupações sociais. À sigla está se juntando mais um E, de economia, porque o resultado das outras poderá ter impacto direto na sua lucratividade.
Questões como atenção menor ao social frente às preocupações com meio ambiente e governança; o envolvimento específico junto às comunidades em torno de sua área de atuação em vez do interesse por causas; e o possível atrito que possa surgir entre os objetivos da agenda e o apoio a projetos sociais/culturais com leis de incentivo, foram por ela respondidas com restrições à forma genérica quando o termo empresas foi citado, mas reconhecendo que “identificação de gestão de riscos e impactos sociais e ambientais nas comunidades que estão no seu entorno, desenvolvendo ações que as integrem, preservem, minimizem e compensem seus impactos e promovam de fato o desenvolvimento sustentável na região em que atuam, é o básico que qualquer empresa deve fazer. É o ponto de partida”.
Assim como é esperado que as companhias se envolvam com causas.
“O capital privado tem que contribuir sim com seu quinhão. Deixamos o capitalismo de shareholder para substitui-lo pelo capitalismo de stakeholder. A partir daí há uma série de discussões sobre de que forma as empresas podem e devem ir além do seu negócio para sua própria sobrevivência”, afirma.
Mas será que os seguidores dessa nova agenda não estariam enxergando certa incompatibilidade entre seu envolvimento com ações sociais e culturais e o uso de leis de incentivo baseadas em renúncia fiscal, o que poderia denotar um interesse filosoficamente menos comprometido com esses setores?
Kelly tem opinião a respeito:
“Não há incompatibilidade. Há as duas coisas em paralelo. Uma é a responsabilidade da empresa no âmbito de suas ações para minimizar/mitigar efeitos que ponham em risco ou possam degradar uma região em que atuam (seja no meio ambiente ou em relação a tradição cultural de um povo), e seu engajamento e posicionamento para promover causas sociais. A outra são os incentivos e programas culturais que elas fazem, seja na região que atuam ou em prol da cultura do País. Ambos podem e devem caminhar juntos”.
Acompanhe abaixo a íntegra da entrevista concedida a Eduardo Martins, por Kelly Lima, por e-mail:
EM – Tenho por hábito ler Relatório Anual de empresas e tenho reparado que, na ânsia de mostrar que estão preocupadas com a agenda ESG, o transformaram em peças torturantes para quem quiser conhecer melhor a companhia. Vejo isso como reflexo de que as empresas estão dando ênfase à questão do meio ambiente, porque está na moda, e para mostrar alguma governança. Mas a maioria se esqueceu do social, das pessoas. Quando muito descrevem como tratam funcionários ou stakeholders. Elas não estão dando muito menos importância para o S dessa sigla? Qual sua opinião sobre esse raciocínio?
KL – Conjugamos do mesmo hábito – a leitura de relatórios – e tendo a concordar que são muitas vezes peças torturantes, mas discordo sobre a questão do social. Em geral temos visto uma preocupação crescente, apesar de muito aquém do potencial na escala social do ESG. E é natural que as empresas tratem de seus stakeholders. Isso é o básico. O que se espera é que avancem para além disso. O que vejo que está crescendo nos relatórios é uma preocupação maior com Governança. E no caso do social, especificamente, algumas medidas passaram a ser padrão e não são mais anunciadas como novidade ou um plus. Talvez isso tenha gerado sua percepção.

EM – Era mais comum as empresas colocarem em seus sites os projetos sociais que apoiava, política de patrocínio, campo para recebimento de propostas… Tudo isso está sumindo não apenas dos sites, mas também de seus Relatórios Anuais. Mas grande parte continua patrocinando projetos culturais, sociais e esportivos com incentivo fiscal, que em 2020 bateu recorde de aplicação. Estou com a impressão de que, em função da agenda ESG, elas estão abandonando políticas claras de investimento social privado e utilizando o incentivo apenas porque têm esse direito – não importa mais informar onde estão aplicando; só o fazem porque existe a renúncia fiscal. É um aparente paradoxo. Elas pregam cada vez mais transparência e estão ficando cada vez menos transparentes quando se fala de social. Por que você acha que isso está acontecendo?
KL – Desde 2019, há uma maior dificuldade de aprovação de patrocínios culturais por isenção fiscal do Governo Federal. Além disso, 2020 foi um ano bastante atípico, por conta da pandemia provocada pela COVID-19, e, com certeza, políticas de patrocínio foram afetadas diretamente, já que os eventos ao vivo desapareceram e muitos recursos migraram para preparativos da Olimpíada, mas não sou especialista no tema de patrocínios e seria leviana em avaliar. Percebo na verdade que, por conta da pandemia, vimos em 2020 muitas das ações “S” voltadas para a saúde, e também vimos surgir algo que estava até meio deixado de lado, que foi a filantropia pura e simples. Acho que por conta desse período atípico, fica difícil fazer uma avaliação mais completa. O que dá para sentir é que as empresas estão mais rigorosas na aplicação dos seus recursos, e mais atentas em não fazer apenas por fazer. Buscam métricas, resultados. Até para parametrizar suas ações dentro do que se convencionou a avaliar como diretrizes ESG na área de avaliação de riscos e crédito.
EM– Vejo que a preocupação social das empresas está concentrada nas comunidades onde ela atua. Mas essa não é uma visão restrita da responsabilidade social? Afinal, só se interessar pela comunidade também restringe o foco para onde se pode melhorar o ambiente de negócio. As empresas não deveriam se importar com causas em vez de só cuidar de quem está por perto?
KL – Quais empresas e em quais áreas? Difícil generalizar. Se há alguma generalização a ser feita quando você fala de “empresas”, sem especificar quais e em quais setores, é que é uma condição sine qua non para toda e qualquer empresa que seu primeiro passo seja identificar e fazer a gestão de seus riscos e impactos sociais e ambientais, ou seja, na economia, no meio ambiente e na sociedade. Faz parte desse processo a identificação de gestão de riscos e impactos sociais e ambientais nas comunidades que estão no seu entorno, desenvolvendo ações que as integrem, preservem, minimizem e compensem seus impactos e promovam de fato o desenvolvimento sustentável na região em que atuam. Isso é o básico. É o ponto de partida.
Sobre ser a favor de direitos humanos como regra, é também o básico, e o mínimo que se espera. Mais que isso, empresas devem se posicionar por direitos humanos de forma ampla e irrestrita, isso sim vai além de responsabilidade social ou filantropia. O envolvimento em causas e propósitos nacionais, internacionais ou que estejam localizados em outras regiões que não sejam de sua atuação direta, ou mesmo que não tenham um lugar físico, mas representem um bem imaterial, claro que é esperado. O capital privado tem que contribuir sim com seu quinhão. Deixamos o capitalismo de shareholder para substitui-lo pelo capitalismo de stakeholder. A partir daí há uma série de discussões sobre de que forma as empresas podem e devem ir além do seu negócio para sua própria sobrevivência. Exaurir recursos básicos pode custar a uma empresa o seu futuro, o futuro do seu negócio. Da mesma forma que não dialogar com a sociedade e avançar nas pautas sociais, pode comprometer severamente sua reputação. As empresas têm que estar atentas a tudo isso e efetivamente fazer sua parte.
EM – Além de empresas patrocinadoras, nosso público principal é formado por pessoas e entidades que se dedicam a projetos culturais, ações sociais, principalmente. Muitas nos perguntam como “tirar proveito” dessa agenda ESG para seu campo de atuação. Você saberia responder?
KL – “Tirar” proveito do ESG todos nós, enquanto raça humana, tiraremos, na medida em que as empresas conseguirem deixar de apenas consumir as matérias-primas e passarem a contribuir com a compensação e a regeneração desses recursos em prol da preservação da cultura, do bioma e de povos tradicionais. No âmbito de negócios, vai ganhar quem estiver trabalhando neste sentido, seja na promoção de maior diversidade, geração de créditos de carbono, educação e culturas regenerativas. Tem um enorme filão de negócios aí.
EM– Finalmente, seguindo o gancho de tema abordado mais acima, gostaria de saber: você acha que existe alguma incompatibilidade entre a empresa se dizer socialmente responsável e fazer uso de incentivo fiscal para apoiar ações culturais ou sociais? O que as empresas estão pensando sobre isso agora?
KL – Na prática, o S do ESG envolve tudo o que diz respeito ao Social, e isso diz muito também da cultura. Não há incompatibilidade. Há as duas coisas em paralelo. Uma é a responsabilidade da empresa no âmbito de suas ações para minimizar/mitigar efeitos que ponham em risco ou possam degradar uma região em que atuam (seja no meio ambiente ou em relação a tradição cultural de um povo), e seu engajamento e posicionamento para promover causas sociais. A outra são os incentivos e programas culturais que elas fazem seja na região que atuam ou em prol da cultura do País. Ambos podem e devem caminhar juntos.
Currículo de Kelly Lima: É fundadora e diretora executiva da Alter Conteúdo Relevante, e editora da Estratégia ESG, newsletter diária que faz uma curadoria sobre o tema na mídia. É paulista, enraizada no Rio de Janeiro há 18 anos. Jornalista formada pela Unesp, tem mais de duas décadas de experiência em redações de jornais, a maior parte dedicada à cobertura do setor de energia, na Agência Estado. Atuou também à frente da Coordenação de Comunicação da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Governo do Estado do Rio, na área de mídias sociais do BNDES e foi gerente de comunicação e coordenadora da célula de comunicação do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), onde coordenou a construção da segunda edição do Guia de Comunicação e Sustentabilidade do Conselho. É consultora estratégica de comunicação com pós-graduação em Comunicação Integrada e Marketing Digital, pela ESPM, e em Fotografia como Instrumento de Pesquisa nas Ciências Sociais, da UCAM. É integrante do Comitê de Comunicação e Estratégia em ESG 2021 da Aberje e membro da Comissão da Mulher e da Diversidade da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), além de integrar a equipe de colaboradores do Projeto #Colabora.
*É Editor-Chefe de VALOR CULTURAL/Marketing Cultural e Perfil de Patrocinadores, que têm entre seus propósitos dar visibilidade a bons projetos, valorizar empresas que praticam patrocínios conscientes e apontar aquelas que fingem ser o que não são no campo da Responsabilidade Social.
SERVIÇO
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