“Muitas mulheres ainda enfrentam barreiras para alcançar representatividade na execução pública de suas músicas, seja em rádios, playlists ou no mercado de shows. Isso cria um “funil” em que a base cresce, mas poucas conseguem chegar ao topo”.
A frase é de Isabel Amorim, superintendente executiva do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), instituição privada brasileira responsável pela arrecadação e distribuição dos direitos autorais de execução pública musical aos autores e demais titulares.
O comentário baseia-se em uma das revelações contidas no relatório “Mulheres na Música”, produzido pelo próprio Ecad e lançado em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Nele, mostra-se que o número de mulheres cadastradas na gestão coletiva da música no Brasil cresceu quase cinco vezes em um ano e os rendimentos femininos em direitos autorais de execução pública musical aumentaram 33% em 2025 em comparação ao ano anterior. Mesmo assim, elas representaram apenas cerca de 10% dos beneficiados com os direitos autorais distribuídos a pessoas físicas no país e somente 2% dos 100 autores com maior rendimento no ano passado.
Nessa entrevista concedida à Valor Cultural, Isabel Amorim reforça a tese de que equidade de gênero não é só uma pauta muito importante para a sociedade, mas é também uma questão relevante para o desenvolvimento da indústria musical. Quando temos a oportunidade de ter essa diversidade no setor, ela diz, conseguimos crescer em criatividade, inovação, sustentabilidade cultural e em ganhos para todos.
Um dos dados mais alarmantes do relatório é sobre o segmento de shows. Das 100 músicas mais tocadas em shows em 2025, apenas 11 têm participação feminina na autoria e, no Top 20, existe apenas uma única representante.
“Os dados de shows, afirma Isabel, são particularmente reveladores porque esse segmento é hoje um dos principais motores de receita na música. Essa desigualdade indica que o ambiente ao vivo ainda é altamente concentrado e dominado por repertórios masculinos.
Vale reforçar que esses números não refletem falta de talento, criatividade ou dedicação. Eles revelam barreiras históricas de acesso, oportunidade e reconhecimento, que ainda limitam a atuação das mulheres na música e na cultura”.
A íntegra da entrevista pode ser lida abaixo. O texto original do relatório Mulheres na Música pode ser acessado no item Serviço, ao final dessa página.
VALOR CULTURAL – O relatório de 2026 traz um dado muito animador na base: o cadastro de mulheres cresceu quase cinco vezes em relação ao ano anterior, ultrapassando 54 mil novos registros em 2025. No entanto, quando olhamos para a elite financeira, as mulheres caíram de 6% (em 2023) para apenas 2% entre os 100 autores com maior rendimento no país. Na sua visão, quais são as principais barreiras estruturais que formam esse “teto de vidro” e impedem que esse boom de novos talentos chegue ao topo da pirâmide financeira?
ISABEL AMORIM – Não podemos deixar de reconhecer que tivemos avanços. O número de mulheres cadastradas na gestão coletiva quase quintuplicou em um ano e passou de pouco mais de 12 mil para mais de 54 mil. Isso mostra que há mais mulheres na criação, na interpretação, na produção e em busca de reconhecimento. Além disso, os rendimentos femininos em direitos autorais cresceram 33% e isso é fruto também do trabalho do Ecad em cobrar os direitos autorais, que garantem a remuneração justa a compositores e artistas.
Mas muitas mulheres ainda enfrentam barreiras para alcançar representatividade na execução pública de suas músicas, seja em rádios, playlists ou no mercado de shows. Isso cria um “funil” em que a base cresce, mas poucas conseguem chegar ao topo.
VC – O total distribuído às mulheres cresceu 33% no último ano, mas ainda representa apenas cerca de 10% do montante de mais de R$ 1 bilhão repassado a pessoas físicas. Como a indústria musical pode acelerar a correção desse abismo financeiro? Falta oportunidade de circulação ou as mulheres estão sendo excluídas das composições com maior potencial de retorno financeiro?
IA – O crescimento de 33% nos rendimentos mostra que há evolução, mas o fato de as mulheres ainda representarem cerca de 10% do total distribuído evidencia que a desigualdade não está apenas na distribuição dos direitos autorais, mas também no espaço que as mulheres ocupam na criação das canções, na visibilidade do seu trabalho e nos palcos. Ainda temos muito a avançar para que as mulheres tenham o que merecem e sejam realmente reconhecidas por seu trabalho.
A indústria precisa ter um olhar voltado para a presença, ou falta de presença, das músicas de autoria feminina. Isso passa por decisões de mercado, como curadoria de festivais, line-ups, investimento de gravadoras e inclusão em projetos de grande alcance.
Também é importante destacar que o acesso aos direitos autorais começa pelo cadastro em uma das sete associações que integram a gestão coletiva (Abramus, Amar, Assim, Sbacem, Sicam, Socinpro e UBC). Sem cadastro, não há distribuição. Mas, mesmo quando estão cadastradas, é essencial que suas obras sejam efetivamente executadas, o que reforça a necessidade de equidade nas oportunidades de exposição.
VC – Um dos dados mais alarmantes do relatório é sobre o segmento de shows. Das 100 músicas mais tocadas em shows em 2025, apenas 11 têm participação feminina na autoria, e no Top 20, temos apenas uma única representante. O mercado de shows ao vivo é hoje o ambiente mais hostil para as compositoras e intérpretes mulheres no Brasil? Por que o cenário de exclusão é tão forte
especificamente neste segmento?
IA – Os dados de shows são particularmente reveladores porque esse segmento é hoje um dos principais motores de receita na música. Essa desigualdade indica que o ambiente ao vivo ainda é altamente concentrado e dominado por repertórios masculinos.
Vale reforçar que esses números não refletem falta de talento, criatividade ou dedicação. Eles revelam barreiras históricas de acesso, oportunidade e reconhecimento, que ainda limitam a atuação das mulheres na música e na cultura.

VC – Você mencionou a urgência de iniciativas concretas para incentivar a Equidade de gênero. Vocês possuem 50% de mulheres no quadro de colaboradores e 44% na liderança, além de integrarem o Pacto Global da ONU e possuírem o Selo IGUAL. Como o lançamento recente do programa interno ELLAS (Empoderamento, Liderança, Liberdade, Apoio e Sucesso) tem impactado a cultura do Ecad, e de que forma vocês esperam que essas ações internas influenciem gravadoras, produtoras e outros players do mercado?
IA – Iniciativas internas como o programa ELLAS são fundamentais porque atuam na base da cultura organizacional, promovendo equidade de forma estruturada e contínua. Ao atingir equilíbrio de gênero no quadro de colaboradores e avançar na liderança, o Ecad não apenas reforça seu compromisso institucional, mas também cria um efeito de referência para o mercado.
VC – Junto com os dados da edição de 2026, o Ecad também lançou um manifesto em prol das mulheres da música, indicando que não basta apenas aumentar o número de mulheres no sistema. Quais são as principais chamadas para a ação desse manifesto? O que produtores de eventos, contratantes e grandes artistas masculinos precisam começar a fazer amanhã para que o relatório de 2027 mostre um cenário diferente?
IA – O manifesto é um documento para contribuir para um setor musical mais diverso, inclusivo e representativo. Listamos compromissos institucionais que serão assumidos pelo Ecad com o objetivo de dar visibilidade ao tema e contribuir para que a presença feminina esteja cada vez mais nos palcos, na criação, na composição, na gestão, na liderança do setor musical e onde elas quiserem.
Já podemos comemorar pequenas vitórias da indústria, que, certamente, vão contribuir para mudanças no futuro, como entidades promovendo programas de incentivo, eventos voltados para mulheres na música e hackathons de compositoras, onde elas ficam imersas criando juntas.
Acho que a equidade de gênero não é só uma pauta muito importante para a sociedade, mas é também uma questão importante para o desenvolvimento da indústria musical. Quando temos a oportunidade de ter essa diversidade no setor, conseguirmos crescer em criatividade, inovação, sustentabilidade cultural e em ganhos para todos. O relatório Mulheres na Música mostra onde estamos nesse momento e estamos distantes de uma indústria musical justa e igual para cada uma delas. Já o manifesto aponta caminhos que podem contribuir para as mudanças que todos nós esperamos.
LEIA MAIS
Mulheres Avançam no Mercado da Música, Mas Só Ficam com 10% da renda total
The Town: Quando Projeto Proprietário Torna Festival em Movimento Cultural
SERVIÇO
Para conhecer o relatório Mulheres na Música clique aqui.