A força da juventude vem das RUAS

“Organize a sua entidade como uma empresa. Tenha em mente que você tem um produto e que ele deve ser vendido como se vende qualquer outro”.

Antônio de Pádua – Coordenador da Rede Urbana de Associações Socioculturais (RUAS)

 

Elemento em Movimento é o nome do festival da RUAS que reúne cerca de 18 mil jovens a cada edição

A juventude brasileira é a parcela da população que mais morre atualmente. Principalmente se ela for masculina, negra e de baixa escolaridade. Segundo a pesquisa do Atlas da Violência 2017, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que estudou as taxas de violência brasileira entre 2005 e 2015, cerca de 60 mil homicídios aconteceram em 2015 no Brasil. Desse número, 47,8% dos óbitos são de jovens homens com idade entre 15 e 29 anos.

Ainda, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) é a violência interpessoal – assassinatos, agressões, bullying, violência entre parceiros sexuais e abuso emocional – a principal causa dessas centenas de perdas que o Brasil tem todos os anos. Mas o que é preciso fazer para reverter essa situação? Visto que o governo não consegue, até hoje, instalar uma política para acabar com essa chacina? É preciso dar oportunidades e educação aos jovens e olhar para essas pessoas como potenciais e não como uma parcela invisível. E essa é a missão da Rede Urbana de Ações Socioculturais (RUAS).

A RUAS busca mudança social na área das periferias do Distrito Federal por meio da ocupação do espaço público para o desenvolvimento de atividades socioculturais. O grupo que coordena o RUAS há 4 anos traz para a população jovem do DF, principalmente da Ceilândia, projetos que oferecem possibilidades e subsídios para que ela possa se expressar, saber seus direitos e, principalmente, ter o empoderamento necessário para desenvolver todo o seu potencial.

Acompanhe abaixo a entrevista completa com Antônio de Pádua, Coordenador da RUAS, onde ele explica a trajetória dessa organização, os desafios e obstáculos dos projetos, os planos para o futuro e ainda dicas para quem está no ramo de produção e captação de projetos socioculturais.

Início de tudo

 “O grupo que coordena a RUAS está há mais de 13 anos juntos. Ao longo dos anos a entidade passou por algumas mudanças; antes éramos Educação em Foco, e há 4 anos nos tornamos RUAS. A mudança ocorreu seguindo uma tendência da própria sociedade. Os jovens de periferia passam por um processo de empoderamento e empreendedorismo, dessa forma a RUAS surge como uma tendência a esse movimento. A ocupação de espaços públicos surge como alternativa à falta de espaços culturais/esportivos disponíveis ou adequados nas periferias do DF. A ocupação de espaços públicos de forma saudável surge por necessidade e como uma forma de chamar atenção para essa realidade.”

Primeiras atividades

“Nossas primeiras ações foram ligadas ao desporto. Realizamos durante 7 anos consecutivos um campeonato de basquete de rua. Foi a ação que causou maior impacto e que nos possibilitou alcançar mais parceiros e estruturar uma equipe. Na mesma linha realizamos um circuito de skate durante 4 anos, realizado em skateparks, com a proposta de revitalização desses espaços. Percebemos que essas ações causaram impacto muito positivo nas regiões onde eram realizadas, principalmente na Ceilândia que é a nossa região de maior atuação.Logo surgiram mais projetos que vinham de encontro com as necessidades dos jovens de periferia, como: Cine Periferia Criativa – um festival de cinema de periferia; Saúde Ativa- em parceria com o Ministério da Saúde que formava jovens para tirar dúvidas 

em suas comunidades sobre DSTs, que atuou em cidades como Itapoã, Estrutural e Arapongas. Assim entendemos nossa vocação em relação ao público jovem de periferia em diferentes áreas como saúde, tecnologia, esporte, etc.”

Regiões e pessoas beneficiadas

“Hoje concentramos nossas ações na Ceilândia, que é a maior periferia do DF com mais de 450 mil habitantes. Mas já realizamos projetos em cidades como Itapoã, Estrutural, Arapongas, Sobradinho, Taguatinga, quase todas as periferias do DF. No entanto o nosso maior projeto de formação de jovens para o mercado da cultura, o Programa Jovem de Expressão do Instituto Caixa Seguradora – oferta oficinas de teatro, dança, audiovisual, fotografia e DJ – funciona na Ceilândia. Assim as nossas maiores ações se concentram na cidade. Atendemos em média 300 jovens por ano no programa em atendimento direto. Realizamos um festival de música chamado Elemento em Movimento, que é uma proposta de projeto realizado e produzido de forma coletiva com os jovens formados nessas oficinas que tem público de 18 mil pessoas.”

 Quem pensa os projetos da RUAS

“Desses oito projetos listados no site, o único que não foi pensado pela equipe RUAS é o Programa Jovem de Expressão, que é um projeto do Instituto Caixa Seguradora onde a RUAS foi convidada a realizar a gestão. Os outros projetos foram pensados pela equipe RUAS observando necessidades e tendências dos jovens de periferia. Toda a equipe RUAS é composta por esses jovens, moradores de periferia, de várias faixas etárias que possuem o mesmo alinhamento em relação à carência de oportunidades de se expressar culturalmente, na área esportiva, saúde, etc. Esse processo de criação passa por várias fases, mas a principal é a viabilidade do projeto e a capacidade técnica do grupo de realizar a ação proposta. Também participamos de editais, principalmente nas áreas de cultura como foco na juventude.”

 Sobre uso das leis de incentivo

“Temos um projeto na Lei Rouanet, o Elemento em Movimento, que é um festival de música que inclui um seminário e oficinas formativas. Percebemos que era um caminho viável quando fomos provocados por um patrocinador, ao pedir patrocínio para um projeto, que só poderiam patrocinar o valor pleiteado via Lei Rouanet. Dessa provocação surgiu a necessidade de conhecer a lei e hoje temos 4 projetos aprovados, com 3 prestações de contas aprovadas. A busca por patrocínio é realizada por meio de apresentação da organização quando possível presencialmente, envio de kit aproximação com portfólio por meio físico ou eletrônico, e participação de editais. O principal argumento é a necessidade que o país tem de investir em juventude. Temos uma política pública bem estruturada para crianças e adolescente, praticamente não temos mais casos de mortalidade infantil, graças a uma política bem estruturada de assistência. No entanto, nossos jovens, principalmente os de periferia, são uns dos que mais morrem por causas violentas no mundo. Esse é um problema que influencia o crescimento de uma nação e que devemos combater juntos: Estado, Iniciativa Privada e Sociedade Civil.”

 Início das tentativas de patrocínio

“As empresas e instituições são muito importantes para realização dos projetos. Inclusive nós acreditamos que é a melhor forma de trabalho. Menos burocrática, mais pautada na realização da ação e que transmite maior confiança em relação ao cumprimento dos acordos entre as partes. No início tudo é mais difícil, falta portfólio, faltam ações que comprovam a eficácia da entidade em realizar projetos, mas sobram ideias e vontade de fazer. Primeiro recorremos a parceiros locais, pequenos comércios, profissionais liberais, administração pública local, etc. As propostas eram de parcerias em troca de serviços para realização das ações. Em suma, os serviços ou produtos eram trocados por divulgação da marca dos patrocinadores. Foram parceiros como padarias, restaurantes, gráficas, serigrafias, lojas de som, parcerias conquistadas de porta em porta. Após essa fase, com algumas ações já realizadas com sucesso, podemos confeccionar um portfólio e bater em mais portas e de empresas maiores.”

 Parceiros atuais e equipe de captação

“Não temos uma equipe definida na RUAS para captação. Todos podem propor parcerias porque estamos alinhados com a política da RUAS e com as nossas metas e ações. Existe um mailing de contatos potenciais, mas investimos muito em comunicação, vários parceiros surgiram dessa busca ativa que algumas empresas têm por parcerias com o Terceiro Setor. No caso do LECria, o projeto surge da necessidade de tratar o empreendedorismo de periferia, o Laboratório de Empreendimentos Criativos surge dentro do Programa Jovem de Expressão, sendo assim já chega com a parceria da Caixa Seguradora e depois buscamos a parceria da Incubadora da UnB.”

 Dificuldades para realizar e buscar apoio

“A maior dificuldade é de captar recursos para manter atividades simultâneas. Temos capacidade administrativa para tocar todos esses oito projetos, mas alguns não são realizados ou perdem a continuidade por saída de parceiros, principalmente em momentos de crise. Hoje, desses oito projetos, estamos com o Basquete de Rua e o DF Street em fase de captação junto a Secretaria de Estado de Esportes do Distrito Federal; O Ação Periferia foi interrompido pela Empresa Brasil de Comunicação – EBC depois de 5 anos no ar (era um programa de rádio); O Cine Periferia Criativa foi propositalmente pausado para gerar um fluxo maior de criações de periferia; em atividade estamos com o Programa Jovem de Expressão e o Elemento em Movimento. Porém, nessas duas ações conseguimos implementar toda a nossa tecnologia social.”

Crianças no Projeto Espaço Aberto da RUAS

 

Equipe da RUAS

“As atividades são compostas pela equipe RUAS, mas cada proposta conta com uma equipe diferente; por exemplo, o skate tem uma equipe de pessoas que entendem de skate para realização das atividades. Assim como no basquete de rua, cinema, etc. As equipes fixas são a administrativas e comunicação. Quando pensamos um projeto já convidamos parceiros ou conhecidos para compor a equipe. Como temos um fluxo grande de jovens que passam por nossas formações, temos uma vasta opção de recursos humanos para as atividades e projetos. Hoje temos 15 pessoas que trabalham remuneradas na RUAS e contamos com um cadastro de mais de 30 voluntários.”

 Planos para o futuro e centro cultural

“Nosso plano é construir o maior Centro Cultural voltado para jovens de periferia do Distrito Federal na Ceilândia. O espaço onde ocupamos hoje já não comporta as atividades e o fluxo de jovens, além de reduzir nossa capacidade de atendimento. Nesses espaços queremos mostrar toda capacidade criativa dos jovens das periferias do DF. Aproveitando a oportunidade, estamos abertos a apresentar a proposta a possíveis apoiadores.”

 Conselhos para quem está no ramo de produção e captação de projetos socioculturais

“Organize a sua entidade como uma empresa. Tenha em mente que você tem um produto e que ele deve ser vendido como se vende qualquer outro produto. Precisa de comunicação, de uma boa embalagem, de marketing, de bons fornecedores, de uma boa prestação de contas. Não tente fazer sozinho, procure ajuda, voluntários, amigos, parentes, etc. E não desista porque precisamos de vocês para construção de uma sociedade mais justa.”  

Quer saber mais sobre a RUAS? Acesse: www.ruas.org.br

Histórias que deram certo nos inspiram através de experiências que começaram pequenas e hoje são um sucesso na área cultural. 

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