Qual o valor de uma visão? Uma vez li um verso do poeta Mário Quintana que dizia: “sonhar é acordar-se para dentro”. Ele me fez notar que por trás da maioria das grandes realizações, das obras dignas de registro, estão visões de mundo fortes o suficiente para impulsionar a prática. Costumo dizer que nós somos do tamanho dos nossos sonhos. O sonho por um país e uma cidade melhores coloca-nos diante de um olhar desafiador na direção de um futuro mais digno para nossa população.
Neste contexto, entra em cena a cultura, elemento integrador de um povo. Esta produção de sentidos deve estar permanentemente em pauta por meio de políticas públicas. Temos de utilizar seu potencial de unificação da identidade e de geração de economia.
A cultura democrática é uma estratégia para conquistar a credibilidade das sociedades. É uma fonte de revigoração das expectativas da autoestima. Uma cidade será mais igualitária quanto mais bem distribuído for o acesso à cultura. Não basta o Estado ordenar a construção simbólica e o patrimônio histórico, mas sim elaborar políticas públicas com fim de orientar o desenvolvimento da produção do imaginário social com o objetivo de transformação da realidade.
O pensador Antonio Gramsci falava em cultura hegemônica e subalterna, ensinando-nos que a cultura só é subalterna enquanto as classes populares não tiverem consciência de si.
A Constituição de 1988 garante a todos o pleno exercício dos direitos culturais. Portanto é compromisso do Estado a valorização e difusão das manifestações no âmbito cultural.
Não o modelo de cultura para todos, e sim cultura por todos, para encurtar a distância entre as diferenças sociais. O caminho é o respeito à diversidade para a construção de um diálogo intercultural para solucionar conflitos no espaço público. A Declaração dos Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) afirma: “toda pessoa tem o direito de integrar livremente a vida cultural da comunidade”.
As cidades têm passado, presente e futuro. Nelas falam o humano, o sensível, a fantasia, as ideias que representam as pessoas e grupos sociais.
No Brasil, com que conceito de cultura nós estamos trabalhando? Que tipo de orientação temos do poder público? As tomadas de decisões em políticas culturais chegam à população? Os espaços existentes funcionam ativamente ao alcance da coletividae? Há projetos de geração de renda para a classe artística?
São algumas perguntas de projeção nacional, já que políticas públicas pressupõem um conjunto de ações coletivas voltadas para as garantias dos direitos sociais. Para tanto, é essencial uma política cultural que revitalize o comportamento dos moradores e suas tradições. O papel do Estado não pode ser substituído pelo setor privado, mas deve atuar em parceria com ele, protegendo as expressões da cultura popular, único campo onde ainda não somos colônia.
É essencial defender o saber local com investimento no território, descentralizar os processos decisórios e a disposição aos bens e serviços culturais. Pensar em políticas públicas para a cultura hoje é elaborar metas num programa interdisciplinar, numa relação com a educação, meio ambiente, turismo, comunicação social, ciência e tecnologia, saúde, esporte, segurança pública, entre outros.
Também sob o ponto de vista econômico a cultura pode ser compreendida como um sistema de cadeias produtivas e avançar na economia do conhecimento: nos setores de renda básica , economia solidária e biotecnologia.
Dar dimensão do olhar para a cultura é inserir sua colaboração na busca constante por uma sociedade mais solidária, uma cidade menos desigual e com mais qualidade de vida.
É possibilitar voz e visibilidade para os excluídos lampesinato (pessoas pobres das comunidades), e campesinato (pessoas pobres do campo).
A cultura é um fermento para um novo amanhã no cenário urbano, alicerçado na cidadania e na arte-educação. É preciso observar a cultura na sua dinâmica social, centralidade nos processos políticos. Assim, perceberemos que a cultura artística faz os jovens mais homens, as jovens mais mulheres e os homens e as mulheres mais jovens.
* Poeta, ator, diretor de teatro, professor universitário, jornalista, mestre em Ciência da Arte pela UFF, atualmente é Secretário de Cultura do município de Maricá (RJ).
